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Série “Morte e Mistério na Amazônia” estreia na HBO

Série “Morte e Mistério na Amazônia” estreia na HBO e investiga a lenda de Akakor e os desaparecimentos atribuídos a Tatunca Nara

Estreou em 10 de setembro a série documental “Morte e Mistério na Amazônia”, produção brasileira em três episódios que reconstrói um dos casos mais persistentes do noticiário policial e antropológico do país: a suposta existência de Akakor, cidade perdida que teria abrigado uma civilização por milênios sob a Floresta Amazônica, e a série de desaparecimentos de estrangeiros que foram até o Rio Negro atrás dela. Os três capítulos ficaram disponíveis de uma só vez no streaming da HBO Max, enquanto o canal HBO exibe a produção em ritmo semanal.

A direção é de Tatiana Issa e Guto Barra, dupla que assinou “Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez”, título que acumulou treze indicações ao Emmy Internacional e três estatuetas. A produção é da Producing Partners em parceria com a HBO, com supervisão executiva de Sergio Nakasone, Adriana Cechetti e Patricio Díaz, da Warner Bros. Discovery. As filmagens ocorreram no Brasil, nos Estados Unidos e no Caribe, acompanhando o rastro documental deixado por três décadas de investigações inconclusivas em pelo menos três países.

Série “Morte e Mistério na Amazônia” estreia na HBO. O que a série documental apresenta?

O material parte de uma equação simples de enunciar e difícil de resolver: uma cidade que nunca foi localizada, um guia cuja identidade é contestada por polícias de dois continentes e turistas estrangeiros que entraram na floresta e não voltaram. Ao longo dos episódios, a produção reúne depoimentos de investigadores, jornalistas, familiares das vítimas, pesquisadores e testemunhas que acompanharam os episódios entre as décadas de 1970 e 1980.

O elemento que diferencia a produção de reportagens anteriores sobre o mesmo assunto é a presença do próprio Tatunca Nara diante das câmeras, apresentando sua versão dos fatos em entrevista gravada na região amazônica onde vive. Em entrevistas de divulgação, os diretores descreveram o entrevistado como alguém de trato difícil e capacidade notável de controlar a narrativa, e relataram que a equipe deixou a área às pressas depois das gravações.

A origem de Akakor e o livro que levou a lenda ao mundo

A história ganhou dimensão internacional em 1976, quando o jornalista alemão Karl Brugger publicou “A Crônica de Akakor”, livro construído a partir de encontros e horas de gravação com um homem que se apresentava em Manaus como líder do povo Ugha Mongulala. Segundo o relato registrado por Brugger, essa população habitaria a região havia cerca de 15 mil anos e guardaria, em galerias subterrâneas, o registro de um contato com visitantes vindos de um sistema estelar chamado Schwerta.

A narrativa incluía detalhes que hoje soam datados e que, na época, encontraram público fiel: a fundação da cidade por volta de 13 mil anos antes de Cristo, a descrição de seres de aparência humana com seis dedos nas mãos e a transmissão de conhecimento técnico avançado a povos da floresta. O prefácio ficou a cargo de Erich von Däniken, autor de “Eram os Deuses Astronautas?”, livro que havia popularizado a hipótese do contato extraterrestre na pré-história e que servia de referência para o circuito esotérico europeu daquele período.

O efeito prático foi imediato. O livro circulou na Europa, atraiu leitores que passaram a tratar Akakor como destino geográfico, e não como narrativa oral, e transformou o personagem central em guia requisitado por quem desejava chegar até lá. Nenhuma expedição jamais apresentou vestígio arqueológico, registro fotográfico verificável ou coordenada que sustentasse a existência da cidade. As expedições realizadas nos anos 1970 e 1980 terminaram com equipamentos extraviados, filmes perdidos e relatos contraditórios sobre o percurso.

Quem é o homem por trás do nome

A identidade do guia é o segundo eixo da série. Investigações conduzidas por autoridades alemãs, entre elas a polícia criminal federal do país, concluíram que Tatunca Nara seria Hans Günther Hauck, nascido em 5 de outubro de 1941 na região de Coburgo, na Baviera. Segundo esse levantamento, Hauck deixou a Alemanha ainda nos anos 1960, após dificuldades financeiras, e chegou ao Brasil por via marítima, aparecendo pouco depois na Amazônia com vestimentas e adereços indígenas e explicando o sotaque com a alegação de ter mãe alemã.

O identificado sempre negou a correspondência entre as duas identidades. Ele vive em Barcelos, no Amazonas, e possui documentação brasileira que o registra como indígena, situação que já foi questionada administrativamente sem alteração definitiva do quadro. A contradição entre o registro civil brasileiro e a conclusão policial europeia é um dos pontos que a produção se propõe a examinar com material de arquivo e depoimentos de quem participou das apurações.

Os desaparecimentos e a morte de Karl Brugger

Três casos de estrangeiros sustentam o interesse criminal pela história. Em 1980, o americano John Reed desapareceu depois de contratar a guia para chegar à cidade descrita no livro. Em 1983, o suíço Herbert Wanner, especialista em engenharia florestal, sumiu na mesma região; sua ossada foi localizada cerca de um ano depois, com perfuração de projétil no crânio. Em julho de 1987, a instrutora de ioga Christine Heuser foi vista pela última vez em Barcelos e nunca mais foi encontrada.

Há ainda o desfecho do jornalista que deu projeção ao caso. Karl Brugger foi morto a tiros em 1º de janeiro de 1984, em Ipanema, no Rio de Janeiro. A investigação nunca identificou autoria nem motivação, e o caso permanece sem solução oficial. A proximidade temporal entre a morte do autor e os desaparecimentos alimentou hipóteses que circulam há quatro décadas em livros, reportagens e fóruns, sem que qualquer delas tenha recebido confirmação documental.

O que dizem as investigações oficiais

Este é o ponto em que a série precisa ser lida com atenção, e em que a cobertura jornalística costuma escorregar. Apesar do volume de apurações abertas no Brasil, na Suíça e na Alemanha ao longo de mais de trinta anos, não houve denúncia formal sustentada nem condenação criminal contra Tatunca Nara em nenhum dos casos. As suspeitas foram registradas, investigadas e arquivadas por insuficiência de provas. Do ponto de vista jurídico, portanto, as acusações permanecem sem decisão judicial definitiva, e a presunção de inocência continua valendo.

Essa moldura explica a escolha narrativa da produção, que trabalha com a apresentação das versões em disputa em vez de oferecer veredicto. A série organiza a cronologia, confronta documentos, ouve quem acusa e quem é acusado, e deixa ao público a tarefa de avaliar a consistência de cada relato.

Por que a história volta agora

O retorno do caso às telas acompanha o apetite do público brasileiro por produções de crime real, formato que se consolidou no streaming nacional a partir de 2022, justamente com o trabalho anterior dos mesmos diretores. A diferença aqui está no cruzamento de gêneros: a produção combina crime real, história da colonização simbólica da Amazônia e um capítulo da cultura pseudocientífica europeia do século 20, aquela que projetou sobre a floresta brasileira expectativas de civilizações ocultas e visitantes de outros mundos.

Esse pano de fundo tem peso próprio. A busca por cidades perdidas na Amazônia antecede em muito a década de 1970, e inclui casos conhecidos como o desaparecimento do explorador britânico Percy Fawcett em 1925, no Mato Grosso, à procura da cidade que chamava de Z. O que “Morte e Mistério na Amazônia” acrescenta é a demonstração de como uma narrativa sem base documental pode sobreviver por décadas, atravessar fronteiras, gerar deslocamentos reais de pessoas e produzir consequências concretas.

Ficha técnica e onde assistir

“Morte e Mistério na Amazônia” tem três episódios, direção de Tatiana Issa e Guto Barra, produção da Producing Partners com a HBO e supervisão executiva da Warner Bros. Discovery. A estreia ocorreu em 10 de setembro, com todos os episódios disponíveis simultaneamente na HBO Max e exibição semanal no canal HBO. A produção é falada em português, inglês e alemão, com legendas, e traz material de arquivo das expedições e das investigações conduzidas em três países.

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