Anthropic diz ter bloqueado uso do Claude em pesquisas biológicas, armas e ataques cibernéticos
Claude em pesquisas biológicas: Relatório descreve cinco casos de possível uso perigoso em biologia, operações contra autoridades ucranianas e campanhas atribuídas a laboratórios chineses para extrair capacidades do modelo
A Anthropic informou ter identificado e interrompido operações nas quais seus modelos de inteligência artificial teriam sido utilizados em pesquisas biológicas de alto risco, desenvolvimento de sistemas para armas, espionagem, vigilância e ataques cibernéticos. As conclusões fazem parte do relatório oficial “Detecting and countering misuse of AI: September 2026”, publicado pela empresa em 10 de setembro.
O documento descreve atividades detectadas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. Segundo a Anthropic, foram investigados episódios em sete áreas: operações cibernéticas, campanhas de influência, vigilância, fraudes, uso biológico indevido, desenvolvimento de armas convencionais e extração não autorizada de capacidades de modelos. A empresa afirma ter bloqueado as contas relacionadas, reforçado suas salvaguardas e compartilhado informações com autoridades ou parceiros do setor quando considerou necessário.
As informações exigem cautela. Grande parte das atribuições foi produzida pela própria Anthropic a partir de dados disponíveis em sua plataforma. As identidades de pesquisadores, instituições e grupos envolvidos não foram integralmente divulgadas. Também não existe, até o momento, uma auditoria independente capaz de confirmar todos os casos e suas respectivas ligações com governos ou empresas estrangeiras.
A Anthropic reconhece no relatório que os episódios selecionados não representam o uso habitual do Claude. A companhia afirma ter publicado os casos mais relevantes ou incomuns encontrados durante o período analisado. Essa distinção é importante porque o documento não apresenta uma taxa geral de abuso nem permite calcular qual proporção das interações com Claude esteve relacionada a atividades perigosas.
Ainda assim, os relatos indicam uma mudança no papel da inteligência artificial em operações sensíveis. Em alguns episódios, Claude não teria sido usado apenas para responder perguntas ou produzir textos. O modelo teria participado de tarefas técnicas, criação de código, organização de pesquisas, revisão de projetos e coordenação de etapas executadas por agentes automatizados.
Cinco casos de possível uso perigoso do Claude em pesquisas biológicas
A seção mais sensível do relatório apresenta cinco estudos de caso envolvendo pesquisas biológicas. A Anthropic afirma que os usuários empregaram seus modelos em atividades que poderiam contribuir para tornar agentes biológicos mais perigosos ou apoiar programas com potencial aplicação ofensiva.
No primeiro caso, uma plataforma revendedora teria contornado bloqueios regionais para atender virologistas ligados a um financiamento estatal. Segundo a empresa, a pesquisa estava relacionada a experimentos de ganho de função com chikungunya. Esse tipo de trabalho pode buscar compreender como um vírus adquire determinadas características, mas também desperta preocupação quando envolve aumento de transmissibilidade, capacidade de adaptação ou gravidade.
A Anthropic afirma que, quando algumas solicitações foram recusadas por modelos com controles mais rigorosos, a plataforma passou a encaminhar os pedidos a sistemas com salvaguardas mais permissivas. Para a companhia, esse comportamento indicava tentativa consciente de contornar restrições técnicas.
O segundo episódio envolveu um pesquisador localizado fora dos Estados Unidos, em uma região não atendida oficialmente pela Anthropic. Ele teria utilizado Claude durante várias semanas para planejar estudos sobre adaptação de influenza aviária a mamíferos. A empresa não revelou o país, a instituição nem a identidade do pesquisador.
Segundo o relatório, os classificadores de segurança restringiram o trabalho aos modelos menos capazes da plataforma. A Anthropic afirma que a investigação tratava de vírus associados a preocupação pandêmica e de mecanismos relacionados à capacidade de causar doenças graves além do sistema respiratório. O relato não comprova que qualquer experimento tenha sido efetivamente realizado.
No terceiro caso, uma plataforma intermediária que atendia cerca de doze clientes teria usado um modelo Opus para redigir, em aproximadamente uma hora, uma proposta completa de financiamento sobre evasão imunológica de orthopoxvirus. Esse grupo inclui vírus com relevância médica e histórica. A Anthropic não identificou o agente específico nem informou se o projeto recebeu recursos ou avançou para experimentos.
O quarto episódio descreve um pesquisador apoiado por um Estado que teria construído um banco de dados de peptídeos de venenos e um sistema para otimizar moléculas relacionadas a efeitos paralisantes e analgésicos. No quinto, um pesquisador teria redesenhado toxinas por meios computacionais para um programa nacional e solicitado ao Claude que mantivesse vagas as identidades dos agentes biológicos em relatórios de progresso.
A empresa afirma ter bloqueado os usuários ligados aos cinco casos e incorporado as informações aos sistemas de detecção. Entretanto, o relatório não identifica os países envolvidos em todas as situações, os nomes dos agentes biológicos, os laboratórios responsáveis ou os resultados concretos dos projetos. Por isso, a formulação mais precisa é que Claude teria apoiado pesquisas com potencial de uso perigoso, e não que o modelo tenha produzido sozinho uma arma biológica pronta.
Por que a inteligência artificial muda o risco biológico
Modelos avançados podem acelerar tarefas normalmente distribuídas entre pesquisadores, revisores e equipes técnicas. Eles conseguem organizar literatura científica, comparar hipóteses, elaborar documentos, produzir código para análise de dados e sugerir caminhos experimentais. Em atividades legítimas, essas capacidades podem contribuir para medicamentos, diagnósticos e prevenção de doenças.
O risco aparece quando o mesmo apoio é direcionado a objetivos nocivos. Um sistema não precisa inventar um novo patógeno para causar impacto. Ele pode reduzir o tempo necessário para reunir informações, estruturar uma pesquisa ou identificar obstáculos técnicos. Também pode permitir que uma equipe menor produza documentos e análises que antes exigiriam mais especialistas.
A Anthropic afirma que modelos antigos, como Claude Opus 4 e Claude Sonnet 4.5, permaneciam abaixo do nível em que poderiam ajudar de forma significativa um usuário sofisticado a executar pesquisa biológica perigosa. Para os modelos atuais, a empresa diz que já não pode oferecer a mesma garantia. Essa avaliação motivou a adoção de controles mais rigorosos em versões recentes.
Ao mesmo tempo, existe uma diferença entre fornecer informação e viabilizar um resultado material. Pesquisas biológicas dependem de instalações, equipamentos, amostras, conhecimentos especializados, equipes, financiamento e capacidade de realizar experimentos. O relatório não demonstra que Claude tenha eliminado essas barreiras. O que ele sugere é que a IA pode reduzir parte do trabalho intelectual e administrativo necessário para um projeto avançar.
Claude teria participado de operações cibernéticas contra a Ucrânia
O documento também descreve um grupo de espionagem digital que teria usado inteligência artificial em diferentes fases de ataques contra alvos ligados à Ucrânia, governos europeus e organizações relacionadas à política externa dos Estados Unidos.
A Anthropic classificou o grupo como GTG 20006 e afirmou que suas técnicas e seus alvos são compatíveis com relatos públicos sobre o Midnight Blizzard, grupo que autoridades norte-americanas associam ao serviço de inteligência exterior da Rússia. A companhia, no entanto, utiliza uma formulação de compatibilidade e não apresenta uma comprovação pública definitiva de identidade.
Segundo o relatório, o grupo atacou setores governamentais, militares, diplomáticos e de defesa. Claude teria sido incorporado a fluxos automatizados usados na criação e adaptação de ferramentas, compra de infraestrutura, campanhas de phishing, manutenção de acesso a sistemas comprometidos e retirada de dados.
Um dos pontos mais relevantes é o uso de agentes para verificar se programas maliciosos haviam sido detectados por sistemas de segurança. Quando uma ferramenta era identificada, os agentes teriam modificado o código e repetido os testes até reduzir a detecção. Esse processo representa uma evolução em relação ao uso de chatbots apenas como consultores, pois a IA passa a participar de ciclos contínuos de tentativa, avaliação e correção.
A operação também teria comprometido fornecedores de redes de internet de hotéis. De acordo com a Anthropic, os invasores modificaram configurações para redirecionar tráfego de hóspedes e preparar novas tentativas de comprometimento. Pessoas associadas à Ucrânia, incluindo autoridades e fabricantes de drones, estariam entre os alvos de interesse.
O relatório afirma ainda que o grupo buscou assumir contas de WhatsApp e extrair conversas em russo e ucraniano. Pelo menos dois ex-integrantes de alto escalão do governo ucraniano teriam sido alvos. Em outro episódio atribuído ao mesmo grupo, uma autoridade tecnológica de um governo do norte da África teria sido invadida, resultando no acesso a uma base com mais de 300 mil registros de identidade e informações comerciais de centenas de milhares de empresas.
A Reuters informou que a Embaixada da Rússia em Washington não respondeu imediatamente ao pedido de comentário sobre as acusações. Essa ausência de resposta não confirma as alegações, mas mantém sem contraponto detalhado a atribuição apresentada pela Anthropic.
Uso do Claude em sistemas militares e desenvolvimento de armas
A Anthropic descreveu seis casos relacionados a armas convencionais, três na China, dois na Rússia e um no Iêmen. Em quatro deles, os usuários teriam empregado Claude para desenvolver ou aperfeiçoar programas associados a equipamentos militares. Nos outros dois, a IA teria ajudado na obtenção de materiais e na coleta de informações sobre sistemas de defesa.
O caso do Iêmen envolve um grupo que, segundo a empresa, trabalhava em programas de foguetes e mísseis. Os usuários teriam operado diferentes instâncias de Claude simultaneamente, distribuindo tarefas de pesquisa, programação e revisão. A Anthropic afirma que várias solicitações foram bloqueadas, mas outras passaram pelos controles porque os responsáveis dividiram o trabalho em sessões separadas e ocultaram a finalidade completa do projeto.
A companhia não encontrou evidência de que o grupo tenha colocado em funcionamento um sistema operacional completo. Houve, porém, um teste de campo com um foguete guiado que aparentemente fracassou. Depois do teste, os usuários teriam retornado ao Claude para analisar possíveis causas da falha.
Na Rússia, um grupo de possíveis prestadores independentes teria usado Claude Code em um projeto de enxame autônomo de drones militares. O relatório afirma que o sistema foi testado em simulação e que partes do código foram instaladas em equipamentos reais de desenvolvimento. A Anthropic não confirmou as alegações dos usuários sobre financiamento governamental russo.
Na China, os casos descritos incluem projetos relacionados a defesa contra torpedos, guerra eletrônica e supressão de defesas aéreas. Em uma das simulações, o usuário teria incluído doze alvos em Taiwan. A Anthropic diz ter encontrado sinais de ligação com instituições chinesas de pesquisa militar, mas não identificou publicamente todos os responsáveis nem ofereceu documentação que permita confirmação externa completa.
Anthropic acusa laboratórios chineses de extrair capacidades do Claude
Outra parte do relatório trata da chamada destilação de modelos. A destilação é uma técnica legítima na qual um sistema menor aprende a partir das respostas de um modelo mais avançado. A controvérsia surge quando esse processo ocorre sem autorização, por meio de contas falsas, credenciais obtidas irregularmente ou violação dos termos de uso de uma plataforma.
A Anthropic acusa sete laboratórios chineses de realizar campanhas para extrair capacidades do Claude. Entre os nomes citados estão Alibaba, Moonshot, DeepSeek, Xiaomi, Zhipu, SenseTime e MiniMax. Segundo a empresa norte-americana, as operações buscaram copiar competências relacionadas a raciocínio, programação, análise de dados, uso de ferramentas e execução de tarefas extensas.
A maior campanha foi atribuída a operadores ligados à Alibaba. A Anthropic afirma ter observado mais de 151 milhões de interações entre maio e julho de 2026. O volume teria alcançado quase 3 milhões de trocas por dia e utilizado milhares de contas consideradas fraudulentas. Segundo o relatório, os dados foram empregados para melhorar modelos Qwen e apoiar pesquisas internas.
As acusações contra Moonshot e DeepSeek incluem uma questão adicional de privacidade. A Anthropic afirma que solicitações feitas por clientes dessas empresas foram encaminhadas ao Claude sem que os usuários soubessem. Algumas interações conteriam códigos internos, credenciais de acesso, informações corporativas e dados relacionados a órgãos governamentais.
No caso da Moonshot, o relatório atribui mais de 23 milhões de interações à campanha analisada entre maio e julho. Para a DeepSeek, a Anthropic diz ter observado mais de 12,1 milhões de trocas em um período de catorze dias de julho. Essas quantidades são alegações da própria Anthropic e ainda não foram validadas por uma entidade independente.
Alibaba, Moonshot, DeepSeek e outras empresas citadas não apresentaram respostas detalhadas à Reuters no momento da publicação da reportagem. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou não conhecer os detalhes e declarou que o país defende o desenvolvimento da inteligência artificial para finalidades benéficas. O órgão também rejeitou o que classificou como distorção dos fatos e ataques contra a China.

De assistente digital a participante de operações
O aspecto central do relatório está na passagem de um modelo consultivo para sistemas integrados a operações. Em vez de receber uma pergunta isolada e entregar uma resposta, a IA pode ser conectada a ferramentas, arquivos, redes e outros agentes. Com isso, passa a executar tarefas, analisar o resultado e adaptar o passo seguinte.
Em cibersegurança, isso permite automatizar reconhecimento, geração de código, análise de falhas e alteração de ferramentas. Na pesquisa científica, o modelo pode organizar dados, redigir propostas e sugerir caminhos de investigação. Em projetos militares, pode auxiliar na criação de programas, simulações e documentos técnicos.
Essa autonomia não significa ausência total de operadores humanos. Nos casos descritos, pessoas continuaram definindo objetivos, fornecendo contexto e acompanhando os resultados. A mudança está na quantidade de trabalho que pode ser delegada ao sistema e na velocidade com que diferentes etapas podem ser repetidas.
Limitações do relatório e necessidade de verificação independente
O documento oferece informações relevantes porque a Anthropic possui acesso a dados que pesquisadores externos normalmente não conseguem observar. A companhia pode analisar padrões de contas, frequência de solicitações, infraestrutura de acesso e conteúdo enviado aos modelos. Essa posição permite detectar campanhas que ficariam dispersas para quem avaliasse apenas fontes públicas.
Por outro lado, a mesma concentração de informações cria um problema de verificabilidade. A Anthropic selecionou os episódios, realizou as atribuições e definiu quais detalhes poderiam ser publicados. Parte dos dados permanece em sigilo por razões de segurança, privacidade ou proteção de métodos de detecção.
Sem acesso aos registros completos, especialistas independentes não conseguem reproduzir todas as conclusões. Também não é possível avaliar publicamente a quantidade de falsos positivos, os critérios exatos usados para classificar uma pesquisa como perigosa ou a proporção entre solicitações bloqueadas e respostas efetivamente fornecidas.
A atribuição de uma operação cibernética a um país ou grupo específico também costuma envolver incerteza. Endereços de rede, idiomas, horários de atividade e métodos técnicos podem oferecer indícios, mas também podem ser falsificados. O próprio relatório utiliza diferentes níveis de confiança e, em algumas situações, afirma não conseguir identificar uma entidade específica.

O que o relatório da Anthropic indica sobre o futuro da segurança de IA
As conclusões reforçam a pressão para que empresas de inteligência artificial desenvolvam controles capazes de analisar não apenas uma solicitação isolada, mas o comportamento acumulado de contas, organizações e agentes. Uma pergunta aparentemente legítima pode fazer parte de um projeto perigoso quando é combinada com dezenas de outras interações distribuídas ao longo do tempo.
A Anthropic afirma ter adotado classificadores específicos, verificação de identidade, bloqueios de contas e restrições regionais. Também passou a resumir registros internos de raciocínio para dificultar extrações destinadas ao treinamento de modelos concorrentes. Nenhuma dessas medidas oferece proteção completa, já que os operadores podem alternar contas, utilizar intermediários ou recorrer a sistemas com menos controles.
O relatório não demonstra que a inteligência artificial tenha criado sozinha uma arma biológica, conduzido de forma independente uma campanha militar ou substituído integralmente equipes de espionagem. Ele apresenta indícios, produzidos pela Anthropic, de que modelos avançados já podem reduzir custos, acelerar etapas e ampliar a capacidade de grupos que possuem conhecimento, infraestrutura e objetivos próprios.
Por isso, a principal conclusão não está apenas na existência de solicitações perigosas. O dado mais relevante é a incorporação de modelos de IA em fluxos operacionais contínuos. Se as atribuições forem confirmadas, Claude teria deixado de atuar somente como uma ferramenta de consulta em alguns casos e passado a participar da execução, revisão e adaptação de atividades cibernéticas, científicas e militares.
O alcance real dessa transformação dependerá de novas evidências, auditorias externas e respostas das organizações citadas. Até que isso aconteça, as alegações devem ser apresentadas como conclusões da Anthropic, acompanhadas das limitações reconhecidas no próprio relatório. Mesmo com essa cautela, o documento amplia o debate sobre responsabilidade das empresas de IA, proteção de dados, controle de acesso e fiscalização de modelos capazes de atuar diretamente em ambientes de alto risco.
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