Crimes

Julgamento de ex-funcionário de centro juvenil termina anulado em New Hampshire

Julgamento de ex-funcionário de centro juvenil termina anulado em New Hampshire. Jeffrey Buskey responde a 21 acusações relacionadas a David Meehan, mas processo foi interrompido sem absolvição ou condenação e poderá ser reiniciado

O julgamento criminal de Jeffrey Buskey, ex-orientador do Youth Development Center, começou em 14 de setembro de 2026 em Manchester, no Estado americano de New Hampshire, mas foi interrompido no dia seguinte antes que o júri pudesse decidir sobre as acusações. O juiz responsável declarou a anulação do julgamento depois que os jurados ouviram referências a alegações envolvendo outros funcionários da instituição, conteúdo que não deveria ser considerado naquele processo específico.

Buskey, de 60 anos, responde a 21 acusações de agressão sexual qualificada relacionadas a David Meehan, que tinha 14 anos quando chegou ao centro juvenil em 1995. O réu se declarou inocente e nega ter cometido os abusos descritos pela acusação. Ele também enfrenta processos separados envolvendo alegações apresentadas por outros três antigos internos.

A anulação não representa condenação, absolvição nem reconhecimento de que as acusações sejam verdadeiras ou falsas. O procedimento terminou sem veredicto. O Ministério Público de New Hampshire informou que avaliará as opções disponíveis, incluindo a realização de um novo julgamento.

O caso é acompanhado de perto porque as denúncias de Meehan contribuíram para expor um dos maiores escândalos relacionados a centros de detenção juvenil nos Estados Unidos. A investigação levou à prisão de antigos funcionários, produziu processos criminais com resultados diferentes, provocou mais de 1.100 ações civis e levou o Estado a estabelecer um mecanismo de indenização para pessoas que afirmam ter sofrido abusos em instituições juvenis.

O que aconteceu no julgamento de Jeffrey Buskey

O julgamento teve início no Tribunal Superior do Condado de Hillsborough, em Manchester. A seleção do júri e as primeiras manifestações das partes ocorreram em 14 de setembro. David Meehan foi a primeira testemunha chamada pela acusação.

Segundo a cobertura da Associated Press sobre a abertura do processo, os promotores sustentaram que Buskey teria usado sua posição de autoridade, além de violência e intimidação, para submeter Meehan a abusos quando ele estava sob custódia estatal. A defesa afirmou que as alegações não possuem comprovação independente suficiente e que existem inconsistências nos relatos apresentados ao longo dos anos.

Buskey reconheceu que conhecia Meehan, mas negou qualquer agressão. Em entrevista policial mencionada durante a preparação do julgamento, ele afirmou que procurava ajudar o adolescente e que a relação entre os dois havia sido boa. A defesa também argumentou que as características físicas da instituição e a presença de outras pessoas tornariam improvável que os fatos tivessem ocorrido da maneira descrita pela acusação.

O júri não chegou a avaliar qual versão era mais convincente. Durante o segundo dia de depoimento, Meehan mencionou que também teria sofrido abuso cometido por outro funcionário. A defesa pediu a anulação, mas o juiz inicialmente determinou que os jurados desconsiderassem a referência.

Pouco depois, outra resposta de Meehan voltou a indicar a existência de alegações contra terceiros. O juiz concluiu que uma nova orientação ao júri não seria suficiente para eliminar o possível efeito dessas informações e encerrou o julgamento.

De acordo com a atualização publicada pela Associated Press, o promotor Thomas Velardi explicou que julgamentos por júri seguem regras rigorosas sobre quais provas podem ser apresentadas. Quando o magistrado considera que o júri ouviu material inadmissível e que uma instrução para ignorá-lo não resolve o problema, a anulação pode ser necessária para preservar a regularidade do processo.

Julgamento de ex-funcionário de centro juvenil termina anulado em New Hampshire. Por que o julgamento foi anulado

Um processo criminal não permite que todas as informações relacionadas ao contexto mais amplo sejam automaticamente apresentadas aos jurados. O juiz define quais provas são pertinentes às acusações em análise e quais conteúdos poderiam causar prejuízo indevido a uma das partes.

Buskey enfrenta alegações envolvendo quatro antigos internos, mas o julgamento iniciado em setembro tratava apenas das 21 acusações ligadas a Meehan. Referências a supostos atos cometidos por outras pessoas poderiam levar os jurados a considerar informações que não estavam sendo examinadas naquela ação.

A decisão do juiz foi processual. Ela não avaliou a credibilidade final de Meehan, não confirmou a versão da defesa e não retirou as acusações contra Buskey. O objetivo foi impedir que o júri formasse um veredicto influenciado por elementos que haviam sido excluídos daquele julgamento.

O Estado ainda pode buscar um novo processo. O Ministério Público informou que analisará a possibilidade de apresentar novamente o caso a outro júri. Até que uma decisão seja tomada, não existe nova data confirmada.

A expressão julgamento anulado também não deve ser confundida com absolvição. Em uma absolvição, o júri ou o juiz conclui o processo em favor do acusado. Na anulação, o procedimento termina sem uma decisão sobre culpa ou inocência. Buskey continua presumido inocente enquanto não houver condenação definitiva.

Quem é David Meehan e como as denúncias vieram a público

David Meehan chegou ao Youth Development Center em 1995, quando tinha 14 anos. Ele tornou pública sua identidade e passou a falar abertamente sobre as acusações, razão pela qual veículos de imprensa americanos utilizam seu nome. Em casos de violência sexual, a prática jornalística costuma preservar a identidade de quem relata o abuso, exceto quando a própria pessoa decide se identificar publicamente.

Meehan afirmou que Buskey inicialmente ocupou uma posição de confiança. Segundo seu relato, o funcionário demonstrava atenção e oferecia atividades e pequenos privilégios antes de começar a cometer abusos. A acusação descreve essa aproximação como parte de um processo de controle sobre um adolescente que estava sob responsabilidade do Estado.

As alegações foram comunicadas às autoridades anos depois dos fatos. Segundo a promotoria, Meehan decidiu falar em 2017 quando temeu que um de seus filhos pudesse ser enviado à mesma instituição. A partir desse relato, as autoridades ampliaram a investigação sobre antigos funcionários do centro.

O longo intervalo entre os fatos alegados e o processo criminal cria dificuldades para os dois lados. Testemunhas podem não se lembrar de detalhes, documentos podem estar incompletos e evidências físicas geralmente não estão mais disponíveis. A acusação depende de depoimentos e registros históricos. A defesa, por sua vez, questiona inconsistências, ausência de confirmação externa e a confiabilidade das lembranças.

Essas dificuldades não determinam antecipadamente o resultado. Cabe ao Ministério Público demonstrar cada acusação além de dúvida razoável, padrão exigido em processos criminais nos Estados Unidos. A defesa não precisa provar inocência, mas pode contestar a qualidade e a coerência das provas apresentadas.

O processo civil e a indenização de US$ 38 milhões

O caso criminal contra Buskey é separado da ação civil movida por Meehan contra o Estado de New Hampshire. Em maio de 2024, um júri civil concedeu a Meehan uma indenização de US$ 38 milhões. O valor, porém, permanece em disputa.

O Estado sustenta que uma regra legal limita o pagamento a US$ 475 mil por ocorrência. A controvérsia envolve a interpretação do que deve ser considerado uma única ocorrência e de como os diferentes episódios descritos no processo devem ser tratados. A discussão chegou à Suprema Corte estadual.

Um resultado civil não determina automaticamente o resultado criminal. Os dois tipos de processo possuem partes, objetivos e padrões de prova diferentes. Na ação civil, discute-se a responsabilidade do Estado e uma possível compensação financeira. No processo criminal, a acusação precisa provar que o réu cometeu os crimes específicos descritos nas acusações.

A indenização concedida pelo júri também não equivale a uma condenação criminal de Buskey. Da mesma forma, a anulação do julgamento criminal não elimina o resultado civil, embora as disputas relacionadas ao valor continuem em andamento.

Como o caso se transformou em investigação de grande escala

Meehan apresentou a primeira das mais de 1.100 ações judiciais relacionadas ao antigo Youth Development Center e a outras instituições vinculadas ao atendimento de menores. As alegações abrangem violência física, sexual e emocional ao longo de aproximadamente seis décadas.

A prisão de Buskey e de outro antigo funcionário em 2019 trouxe maior atenção pública ao caso e foi seguida por uma investigação criminal de grandes proporções. Outras prisões ocorreram nos anos seguintes. As autoridades passaram a examinar relatos de antigos internos e a buscar documentos e testemunhas capazes de confirmar ou contestar as denúncias.

Os processos decorrentes dessa investigação não tiveram um resultado único. Segundo a Associated Press, três antigos funcionários foram condenados em ações criminais. Outros acusados foram absolvidos, tiveram julgamentos anulados, receberam decisões inconclusivas ou não chegaram a ser julgados por diferentes razões. Há ainda casos pendentes.

Esse histórico é importante para mostrar que as denúncias são avaliadas individualmente. A condenação de um ex-funcionário não prova as acusações contra outro. Uma absolvição ou anulação também não determina o resultado de processos diferentes. Cada ação depende das acusações, das provas admitidas e dos depoimentos apresentados ao respectivo júri.

https://camilaabdo.com/
https://camilaabdo.com/

Fundo de indenização recebeu centenas de pedidos

Além de responder às ações judiciais, New Hampshire criou o Youth Development Center Claims Administration and Settlement Fund. O mecanismo foi estabelecido para analisar pedidos de pessoas que afirmam ter sofrido violência sexual ou outras formas de abuso em instituições juvenis cobertas pelo programa.

O fundo funciona separadamente dos processos criminais. Uma pessoa pode buscar compensação sem que exista condenação criminal do funcionário apontado em seu relato. O administrador examina documentos, depoimentos e outros elementos para determinar a elegibilidade e o valor aplicável dentro das regras do programa.

O relatório oficial do fundo referente a janeiro de 2026 informava que 425 pedidos já haviam sido resolvidos com concessão de indenização. O valor médio, incluindo juros, era superior a US$ 563 mil. Os números mostram que o impacto financeiro e institucional do caso ultrapassou os processos criminais individuais.

A existência do fundo não representa admissão automática da veracidade de todas as alegações apresentadas nas ações judiciais. Trata-se de uma estrutura administrativa criada pelo Estado para avaliar pedidos segundo critérios próprios. O site oficial afirma que o objetivo é oferecer uma análise justa e compensação às pessoas cujos relatos atendam às exigências legais.

O que era o Youth Development Center

O Youth Development Center era uma instituição estadual destinada a adolescentes submetidos ao sistema de Justiça juvenil. Posteriormente, passou a ser chamado de Sununu Youth Services Center, em referência ao ex-governador John H. Sununu.

O local chegou a abrigar mais de cem jovens, mas atualmente atende um número muito menor e se concentra em adolescentes acusados ou condenados por crimes violentos graves. Legisladores estaduais aprovaram o fechamento da estrutura atual e sua substituição por uma unidade menor em outro endereço.

Centros juvenis possuem uma responsabilidade específica porque recebem crianças e adolescentes sob custódia do Estado. Os internos têm liberdade limitada, dependem dos funcionários para necessidades básicas e podem enfrentar dificuldades para denunciar comportamentos impróprios. Essa relação de dependência torna essenciais os mecanismos de supervisão, registro de incidentes, proteção a denunciantes e investigação independente.

O volume de ações relacionadas ao YDC levantou dúvidas sobre a capacidade das instituições estaduais de identificar sinais de abuso e responder a denúncias ao longo dos anos. As ações civis discutem não apenas comportamentos individuais, mas também se falhas de supervisão e proteção permitiram que violações ocorressem ou permanecessem sem resposta.

Resultados anteriores não determinam o caso de Buskey

Processos associados ao escândalo produziram condenações, absolvições e júris incapazes de chegar a uma decisão unânime. Também houve acusações retiradas e réus que não puderam ser julgados. Essa variedade revela as dificuldades de avaliar fatos alegados décadas depois e reforça a necessidade de evitar conclusões gerais a partir de um único resultado.

No caso de Buskey, a defesa sustenta que os relatos de Meehan não são confiáveis e que faltam provas de confirmação. A acusação afirma que o depoimento deve ser compreendido dentro das condições vividas por um adolescente sob custódia e das consequências que o medo e o trauma podem produzir.

Nenhuma dessas posições foi submetida a uma decisão final do júri. A interrupção ocorreu no início do julgamento, antes que todas as testemunhas fossem ouvidas e antes das manifestações finais das partes.

Caso o Estado decida realizar um novo julgamento, um novo júri deverá avaliar somente as provas admitidas pelo tribunal. A acusação poderá ajustar a forma de apresentar os depoimentos para evitar referências excluídas. A defesa continuará autorizada a questionar os relatos e apresentar sua própria interpretação dos registros e das circunstâncias.

https://estudio02.com/
https://estudio02.com/

O que acontece depois da anulação

O próximo passo depende da decisão dos promotores de New Hampshire. Eles podem solicitar um novo julgamento das 21 acusações relacionadas a Meehan ou adotar outro encaminhamento permitido pela legislação estadual. Até o momento, foi confirmado apenas que as opções estão em análise.

Os processos separados envolvendo outros três antigos internos não foram resolvidos pela anulação ocorrida em setembro. Eles possuem acusações e calendários próprios. Qualquer desenvolvimento deverá ser acompanhado individualmente.

Também continua pendente a controvérsia sobre a indenização civil concedida a Meehan. A definição do valor poderá influenciar outros processos contra o Estado, embora cada ação também dependa de suas próprias circunstâncias.

Caso permanece sem decisão sobre culpa ou inocência

O julgamento iniciado em 14 de setembro representava uma etapa importante em uma investigação que já se estende por anos. Sua interrupção, no entanto, deixou as principais questões sem resposta judicial definitiva.

Jeffrey Buskey continua acusado de 21 crimes relacionados a David Meehan e de outros delitos em processos separados. Ele nega as acusações e mantém o direito à presunção de inocência. Meehan, que decidiu tornar pública sua identidade, sustenta que sofreu abusos enquanto estava sob custódia do Estado.

A anulação mostra a importância das regras de admissibilidade de provas em julgamentos criminais. Mesmo em um caso inserido em um escândalo de grandes proporções, o júri deve decidir apenas com base no material autorizado para aquela ação. Quando essa separação deixa de ser possível, o processo pode precisar recomeçar.

O caso do Youth Development Center continuará relevante independentemente do destino imediato deste julgamento. Mais de 1.100 ações, centenas de pedidos de indenização, prisões de antigos funcionários e resultados criminais variados mostram a extensão da crise enfrentada por New Hampshire. No processo específico de Buskey, porém, a conclusão permanece aberta e dependerá das próximas decisões do Ministério Público e do tribunal.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo