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As 3 invenções de Monstro sobre Lizzie Borden, Bridget Sullivan e o movimento sufragista

As 3 invenções de Monstro sobre Lizzie Borden: Entenda o que a série Monstro inventou sobre Lizzie Borden, Bridget Sullivan, Bertha Manchester e a luta pelo voto feminino nos Estados Unidos.

A série Monstro: A História de Lizzie Borden, da Netflix, utiliza um dos processos criminais mais conhecidos dos Estados Unidos para construir uma narrativa sobre violência, opressão feminina, sexualidade e desigualdade. A produção preserva alguns fatos centrais do caso, mas altera acontecimentos importantes e cria relações que não aparecem nos documentos históricos.

Entre as maiores invenções estão a participação de Lizzie Borden no movimento sufragista, o envolvimento dela e da empregada Bridget Sullivan no assassinato de Bertha Manchester e a existência de um relacionamento amoroso entre as duas mulheres.

Nenhuma dessas três histórias possui comprovação histórica. Lizzie não foi uma liderança sufragista conhecida, Bertha foi morta quando Lizzie estava presa e Bridget nunca foi formalmente associada aos assassinatos da família Borden.

A série pode utilizar esses acontecimentos como recursos de ficção, mas o espectador precisa separar a proposta artística dos fatos documentados. A presença de nomes, datas e lugares reais não significa que todas as cenas tenham ocorrido.

As 3 invenções de Monstro sobre Lizzie Borden

Lizzie Borden não participou do movimento sufragista

No encerramento de Monstro, Lizzie Borden e Bridget Sullivan aparecem reunidas e engajadas na luta pelo direito de voto das mulheres. A produção sugere que elas financiaram o movimento sufragista e encontraram uma nova finalidade para suas vidas por meio do ativismo político.

A cena funciona como uma conclusão simbólica para a narrativa criada pelos roteiristas. Depois de sobreviver ao julgamento e enfrentar a rejeição social, a Lizzie apresentada pela série transforma sua experiência em militância pelos direitos femininos.

Na vida real, não existem documentos que demonstrem que Lizzie Borden tenha participado do movimento sufragista, financiado organizações feministas ou trabalhado pela aprovação do voto feminino.

Também não há evidência de que ela tenha atuado ao lado de Bridget Sullivan em qualquer campanha política. A reunião mostrada no final da série foi criada para a televisão.

Lizzie participou de organizações religiosas e atividades sociais antes dos assassinatos. Ela era ligada à Igreja Congregacional Central, ajudava em ações da escola dominical e integrava grupos cristãos. Também esteve envolvida em atividades de caridade e em iniciativas relacionadas ao hospital de Fall River.

Essas atividades, porém, não a transformam em uma sufragista. O envolvimento religioso e comunitário era comum entre mulheres de sua posição social e não corresponde automaticamente à defesa organizada do direito ao voto.

As reconstruções de sua vida posteriores ao julgamento também não mostram uma transformação em liderança política. Depois de ser absolvida em 1893, Lizzie comprou com a irmã Emma uma residência maior, conhecida como Maplecroft, e continuou vivendo em Fall River.

Ela viajava, frequentava teatros e mantinha relações sociais com pessoas ligadas ao meio artístico. Ao mesmo tempo, enfrentava rejeição de antigos conhecidos e permanecia sob a suspeita pública de ter participado das mortes de Andrew e Abby Borden.

Lizzie não deixou discursos, manifestos, artigos, registros financeiros ou correspondências conhecidas que comprovem participação no movimento sufragista. Também não aparece entre as figuras documentadas da campanha pelo voto feminino em Massachusetts.

A representação do final de Monstro deve ser entendida como uma escolha temática, não como uma descoberta sobre sua vida. Verificações publicadas depois da estreia da série destacaram que não existe evidência histórica estabelecida de que Lizzie tenha se tornado sufragista.

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Sufragistas defenderam Lizzie durante o julgamento?

A ausência de participação política de Lizzie não significa que o movimento pelos direitos femininos tenha ignorado seu processo.

Algumas organizações de mulheres e ativistas manifestaram preocupação com o tratamento dado à acusada. Naquele período, as mulheres não podiam participar dos júris em Massachusetts. O destino de Lizzie seria decidido exclusivamente por homens.

Parte das defensoras argumentava que uma mulher acusada de um crime tão grave deveria ter direito a um julgamento no qual mulheres também pudessem participar da formação do júri.

Outras pessoas apoiaram Lizzie por acreditar que uma mulher religiosa, pertencente a uma família conhecida e envolvida em ações comunitárias não seria capaz de cometer assassinatos tão violentos.

Esse apoio externo pode ter inspirado os roteiristas a associar Lizzie ao sufrágio feminino. No entanto, existe uma diferença histórica importante entre receber apoio de determinados grupos e integrar esses grupos.

Não há prova de que Lizzie tenha transformado o apoio recebido em militância. A série inverte essa relação ao apresentar a acusada como financiadora e participante ativa do movimento.

O recurso também confere uma dimensão política ao desfecho. Ao unir Lizzie e Bridget em uma campanha pelos direitos das mulheres, a produção oferece às personagens uma forma de redenção e propósito. Essa conclusão pertence ao universo ficcional criado pela Netflix.

Bertha Manchester existiu, mas não era a vizinha mostrada pela série

Outra alteração importante envolve Bertha Manchester. Em Monstro, ela é apresentada como uma mulher próxima da família Borden. Lizzie e Bridget praticam o assassinato contra ela antes de matarem Andrew e Abby.

A produção utiliza o crime como uma preparação para o ataque principal. Dessa forma, Lizzie e Bridget aparecem não apenas como amantes, mas como parceiras em uma sequência planejada de assassinatos.

Bertha Manchester realmente existiu e foi assassinada com uma arma cortante em Fall River. Quase todo o restante da trama exibida pela série foi inventado.

Bertha tinha 22 anos e vivia na fazenda de seu pai, localizada em New Boston Road. Ela foi morta em 30 de maio de 1893, aproximadamente dez meses depois das mortes de Andrew e Abby Borden.

A data torna impossível qualquer participação de Lizzie. Naquele momento, ela estava presa e aguardava o julgamento que começaria em junho de 1893.

Bertha também não era uma vizinha próxima que morava ao lado da família Borden. A propriedade ficava a quilômetros da residência da Second Street, onde os assassinatos de Andrew e Abby aconteceram.

O caso chamou a atenção porque envolvia outra mulher morta com golpes em Fall River poucos dias antes do início do julgamento de Lizzie. As semelhanças superficiais estimularam comparações nos jornais e entre moradores da cidade.

Isso não significa que os crimes estivessem ligados. A Fall River Historical Society trata o assassinato de Bertha como outra tragédia da cidade e registra que José Correia de Mello foi responsabilizado pela morte. Fall River Historical Society

Quem matou Bertha Manchester

José Correia de Mello era um jovem imigrante português dos Açores. Ele havia trabalhado por pouco tempo na fazenda da família Manchester.

De acordo com os registros históricos, Mello acreditava que o pai de Bertha lhe devia dinheiro. Ele retornou à propriedade e se envolveu em uma discussão. Bertha foi atacada e morta.

Mello entregou-se às autoridades em 3 de junho de 1893. Posteriormente, admitiu o crime e declarou-se culpado de homicídio em segundo grau. Foi condenado à prisão perpétua.

Portanto, não existe uma dúvida histórica equivalente à que permanece no caso Borden. Lizzie e Bridget não foram apontadas como responsáveis pelo assassinato de Bertha, enquanto José Correia de Mello foi preso e condenado.

A morte de Bertha ocorreu quando Lizzie permanecia sob custódia. Essa circunstância elimina materialmente a hipótese apresentada pela série.

A produção retirou Bertha de seu contexto verdadeiro, alterou sua relação com os Borden e transferiu a autoria do crime para as protagonistas. A inclusão permite que o roteiro apresente um primeiro assassinato, mas não possui fundamento documental. people.com

A informação correta, portanto, não é simplesmente que nenhuma outra mulher tenha sido assassinada em Fall River. Bertha Manchester foi realmente morta. O ponto central é que ela não foi vítima de Lizzie ou Bridget, não morreu no mesmo dia que Andrew e Abby e não fazia parte do crime ocorrido na casa dos Borden.

As únicas vítimas do caso Borden

No crime investigado em 1892, as vítimas foram Andrew Jackson Borden e sua segunda esposa, Abby Durfee Gray Borden.

Abby foi atacada primeiro no quarto de hóspedes da residência. Andrew foi morto aproximadamente uma hora e meia depois, enquanto descansava no sofá da sala.

Lizzie estava na propriedade durante parte daquela manhã. Bridget também se encontrava na casa e realizava tarefas domésticas. Emma Borden, irmã mais velha de Lizzie, estava fora da cidade.

Não houve uma terceira vítima dentro da residência. Nenhuma vizinha foi morta naquele dia e nenhum outro corpo foi encontrado nas proximidades.

A introdução de Bertha como uma vítima anterior muda a compreensão do caso. Em vez de apresentar um duplo homicídio sem autoria definida, a série transforma Lizzie e Bridget em criminosas experientes que executam um plano.

Essa escolha elimina deliberadamente a dúvida que acompanha a história real. Lizzie foi julgada e absolvida. Bridget não foi acusada. O autor dos assassinatos de Andrew e Abby nunca foi identificado judicialmente.

Bridget Sullivan existiu e estava na casa

Bridget Sullivan não foi criada pela série. Ela era uma imigrante irlandesa que trabalhava como empregada na residência da família Borden.

Os integrantes da casa a chamavam de Maggie, prática comum entre famílias daquele período ao se referirem a empregadas irlandesas, mesmo quando esse não era o nome verdadeiro da mulher.

Bridget estava na propriedade em 4 de agosto de 1892. Naquela manhã, Abby pediu que ela lavasse as janelas, embora a empregada tivesse relatado problemas de saúde.

Depois de concluir parte do trabalho, Bridget subiu para descansar. Pouco tempo depois, ouviu Lizzie chamá-la e dizer que Andrew havia sido morto.

Bridget ajudou a procurar Abby e participou dos acontecimentos posteriores à descoberta dos corpos. Também prestou depoimentos durante o inquérito, as audiências e o julgamento.

Sua presença na casa e algumas dúvidas sobre horários fizeram com que teorias posteriores a incluíssem entre os possíveis suspeitos. Contudo, não foram apresentadas provas suficientes para acusá-la.

A polícia não encontrou roupas ensanguentadas, arma, confissão ou objeto que ligasse Bridget à execução dos crimes. Seu testemunho teve importância para a reconstrução dos horários, mas não demonstrou participação.

Não existe prova de que Lizzie e Bridget fossem amantes

O relacionamento amoroso entre Lizzie Borden e Bridget Sullivan é outro elemento central de Monstro. Na série, as duas mantêm uma relação sexual, planejam crimes e permanecem ligadas por um segredo.

Não existe evidência histórica que comprove esse romance. Nenhuma carta, diário, declaração contemporânea ou depoimento judicial indica que as duas eram amantes.

Também não há prova documental conclusiva sobre a orientação sexual de Lizzie. A possibilidade de relações com mulheres foi discutida principalmente por autores posteriores, com base em interpretações de sua vida social e de sua amizade com a atriz Nance O’Neil.

Lizzie conheceu Nance anos depois do julgamento. A amizade entre elas provocou comentários em Fall River e teria contribuído para o afastamento entre Lizzie e Emma. Ainda assim, a natureza amorosa dessa relação não foi comprovada.

As especulações sobre Bridget ganharam força por meio da literatura e do cinema. O romance Lizzie, publicado por Evan Hunter em 1984, apresentou uma relação sexual entre Lizzie e a empregada. O filme Lizzie, de 2018, protagonizado por Chloë Sevigny e Kristen Stewart, também adotou essa interpretação.

A repetição da mesma hipótese em diferentes obras pode criar a impressão de que existe uma base documental. Na realidade, trata-se de uma teoria utilizada por escritores e roteiristas para oferecer uma motivação aos assassinatos e explicar uma possível cumplicidade entre as duas mulheres.

Verificações históricas recentes reforçam que não há prova de romance ou parceria criminosa entre Lizzie e Bridget. ew.com

Bridget não foi condenada nem acusada pelos assassinatos

Bridget apareceu nos documentos do caso como testemunha, não como ré. Os investigadores questionaram seus movimentos, suas tarefas e o que ela ouviu dentro da casa, mas não encontraram elementos para denunciá-la.

O fato de ela estar na propriedade despertou suspeitas posteriores. Alguns autores imaginaram que Bridget poderia ter ajudado Lizzie, escondido informações ou permitido que a jovem trocasse de roupa.

Essas hipóteses enfrentam o mesmo problema: não foram comprovadas. A ausência de uma explicação definitiva para o crime abriu espaço para teorias envolvendo quase todas as pessoas próximas à família.

Emma Borden, o tio John Morse, trabalhadores ligados a Andrew, um suposto filho ilegítimo e um invasor desconhecido já foram apresentados como possíveis responsáveis. Nenhuma dessas versões solucionou o caso.

Depois do julgamento, Bridget deixou Fall River, mudou-se para Montana, casou-se e viveu afastada da atenção pública. Não existe registro de que ela tenha retomado uma relação com Lizzie ou participado com ela de atividades políticas.

A imagem das duas como um casal que permaneceu unido e financiou o movimento sufragista reúne duas invenções em uma mesma conclusão.

Por que Monstro mudou tanto a história

A série não se limita a reconstruir o processo criminal. Ela procura interpretar a lenda criada em torno de Lizzie Borden e relacioná-la a temas contemporâneos.

O romance com Bridget fornece uma motivação emocional para as protagonistas. O assassinato de Bertha transforma as duas em parceiras criminosas antes das mortes dos Borden. A participação no sufrágio oferece um desfecho político e uma tentativa de redenção.

Essas escolhas formam uma narrativa coerente dentro da ficção, mas dependem da alteração de fatos fundamentais. A Lizzie histórica não confessou os assassinatos, foi absolvida pelo júri e nunca teve sua participação no movimento sufragista comprovada.

Bridget existiu e estava na casa, mas não foi acusada, não foi identificada como amante de Lizzie e não retornou posteriormente para atuar ao lado dela.

Bertha também existiu, porém foi morta meses depois, quando Lizzie estava presa. O homem responsabilizado pelo crime confessou e foi condenado.

Ao apresentar essas histórias lado a lado, Monstro reduz a distância entre fato e interpretação. O resultado funciona como drama televisivo, mas pode transmitir informações incorretas aos espectadores que desconhecem o caso.

O que realmente pode ser afirmado

Lizzie Borden foi acusada pelos assassinatos do pai e da madrasta e absolvida em 1893. A identidade do autor nunca foi estabelecida judicialmente.

Bridget Sullivan estava na residência, prestou depoimento e não foi denunciada. Não existe evidência de que tenha mantido um romance com Lizzie ou ajudado a executar os crimes.

Bertha Manchester foi assassinada em Fall River, mas morreu em maio de 1893, quando Lizzie estava presa. José Correia de Mello assumiu responsabilidade pelo crime e recebeu uma condenação.

Lizzie recebeu apoio de algumas organizações femininas durante o processo, mas não há comprovação de que tenha integrado ou financiado o movimento sufragista.

A série combina esses elementos para criar uma história sobre mulheres que enfrentam estruturas sociais restritivas e encontram uma forma de transformação política. Essa é uma interpretação dos roteiristas, não uma reprodução fiel da vida de Lizzie Borden.

A distinção não impede que a obra seja apreciada como ficção. Ela apenas evita que escolhas dramáticas sejam confundidas com acontecimentos reais.

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