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Lizzie Borden: a história real do crime que permanece sem solução após mais de 130 anos

Lizzie Borden foi absolvida pelo assassinato do pai e da madrasta em um dos crimes mais famosos dos Estados Unidos.

O nome de Lizzie Borden permanece associado a um dos casos criminais mais conhecidos da história dos Estados Unidos. Em 4 de agosto de 1892, Andrew Borden e sua esposa, Abby Borden, foram encontrados mortos dentro da própria casa, em Fall River, no Estado de Massachusetts. As vítimas haviam recebido diversos golpes na cabeça, provavelmente desferidos com uma machadinha.

Lizzie, filha de Andrew e enteada de Abby, tornou-se a principal suspeita. Ela foi presa, formalmente acusada e submetida a um julgamento acompanhado por jornais de várias partes do país. Em junho de 1893, porém, o júri considerou que as provas apresentadas não eram suficientes para condená-la.

A absolvição não encerrou o debate. Lizzie Borden jamais conseguiu se afastar completamente da suspeita pública, enquanto nenhum outro responsável pelos assassinatos foi identificado. Mais de 130 anos depois, o caso continua sendo analisado em livros, documentários, filmes, séries e produções dedicadas a crimes reais.

A história reúne um crime cometido em plena luz do dia, uma família rica marcada por conflitos internos, uma investigação com limitações técnicas e um julgamento influenciado pelos valores sociais do século 19. A combinação desses elementos transformou Lizzie Borden em uma personagem permanente da cultura popular.

Quem foi Lizzie Borden

Lizzie Andrew Borden nasceu em 19 de julho de 1860, em Fall River, uma cidade industrial situada a cerca de 80 quilômetros de Boston. Ela era filha de Andrew Jackson Borden e Sarah Anthony Morse Borden.

Sarah morreu em 1863, quando Lizzie ainda era criança. Andrew se casou novamente com Abby Durfee Gray, que passou a viver com ele e suas duas filhas, Lizzie e Emma. A relação entre as jovens e a madrasta teria se tornado distante ao longo dos anos, embora o grau real de conflito dentro da família ainda seja objeto de discussão.

Andrew Borden era um empresário bem sucedido. Ele acumulou dinheiro por meio de negócios imobiliários, investimentos em bancos e participação em indústrias locais. Apesar da fortuna, mantinha hábitos considerados econômicos. A família morava em uma residência confortável, mas localizada em uma região menos prestigiada de Fall River.

Lizzie, então com 32 anos, participava de atividades religiosas e sociais. Era ligada à Igreja Congregacional Central, ajudava em aulas dominicais e participava de organizações cristãs. Sua posição social e sua imagem de mulher religiosa seriam importantes durante o julgamento.

Na sociedade daquele período, mulheres solteiras de famílias protestantes e economicamente privilegiadas eram associadas à delicadeza, à obediência e ao comportamento moral. Para parte da opinião pública, a ideia de que Lizzie pudesse cometer um crime tão violento parecia incompatível com essa imagem.

O ambiente na casa dos Borden

A casa da família ficava na Second Street, em uma área movimentada de Fall River. Sua estrutura interna era incomum, com cômodos interligados e poucas passagens que permitissem circular sem atravessar determinados quartos.

Além de Andrew, Abby, Lizzie e Emma, a residência contava com a presença da empregada irlandesa Bridget Sullivan. Nos dias anteriores aos assassinatos, algumas pessoas da casa apresentaram problemas digestivos. Houve suspeitas sobre a comida consumida pela família, mas nenhuma evidência conclusiva de envenenamento foi encontrada.

Emma Borden estava fora de Fall River quando os crimes ocorreram. Outro familiar, John Morse, irmão da mãe biológica de Lizzie, havia chegado à residência no dia anterior. Na manhã dos assassinatos, Morse deixou o local para visitar parentes e apresentou informações que sustentaram seu paradeiro.

Dessa forma, durante parte importante daquela manhã, Abby, Andrew, Lizzie e Bridget eram as pessoas presentes na propriedade.

Como aconteceram os assassinatos

Na manhã de 4 de agosto de 1892, Andrew Borden saiu para resolver assuntos na cidade. Abby permaneceu em casa e teria subido ao quarto de hóspedes para realizar tarefas domésticas.

De acordo com a reconstrução aceita pelas autoridades, Abby foi a primeira vítima. Ela foi atacada no quarto e atingida repetidamente na cabeça. Seu corpo ficou caído próximo à cama.

Bridget Sullivan estava do lado de fora da casa durante parte da manhã, lavando janelas. Lizzie afirmou que circulava pela residência e que, em determinado momento, foi até o celeiro localizado nos fundos da propriedade.

Andrew retornou por volta das 10h45. Depois de entrar, deitou-se no sofá da sala. Bridget, que não se sentia bem, subiu para descansar em seu quarto.

Pouco tempo depois, Lizzie chamou a empregada e informou que o pai estava morto. Andrew havia sido atingido diversas vezes no rosto e na cabeça enquanto permanecia no sofá. Os ferimentos eram tão graves que deixaram sua face parcialmente irreconhecível.

A morte de Abby ainda não havia sido descoberta naquele momento. Lizzie mencionou que a madrasta poderia ter recebido uma mensagem e saído de casa. Mais tarde, Bridget e uma vizinha subiram a escada e avistaram o corpo de Abby no quarto de hóspedes.

Os assassinatos teriam acontecido com aproximadamente uma hora e meia de diferença. Ninguém relatou ter ouvido gritos, barulho de luta ou pedidos de socorro. Também não havia sinais claros de arrombamento, roubo ou entrada forçada.

Por que Lizzie Borden se tornou suspeita

O comportamento de Lizzie despertou a atenção dos investigadores. Suas explicações sobre os próprios movimentos naquela manhã apresentaram diferenças ao longo dos interrogatórios.

Em alguns relatos, ela disse que havia ido ao celeiro procurar materiais para uma pescaria. Em outros momentos, afirmou que procurava um pedaço de ferro. Também houve dúvidas sobre quanto tempo ela teria permanecido fora da casa.

A relação entre Lizzie e Abby foi outro ponto explorado. Ao ser questionada, Lizzie fez questão de explicar que Abby não era sua mãe, mas sua madrasta. Investigadores e jornalistas interpretaram a correção como sinal de distanciamento, embora isso não constituísse uma prova criminal.

As autoridades também receberam a informação de que uma mulher identificada como Lizzie teria tentado comprar ácido prússico, uma substância altamente tóxica, em uma farmácia, na véspera dos assassinatos. A defesa contestou a identificação, e o episódio acabou excluído do julgamento.

Outro fato relevante envolveu um vestido queimado no fogão da casa alguns dias depois dos crimes. Alice Russell, amiga próxima de Lizzie, afirmou ter presenciado a destruição da peça. Segundo Lizzie, o vestido estava manchado de tinta e não tinha relação com as mortes. Para a acusação, a roupa poderia ter sido uma evidência eliminada.

A polícia encontrou machados e machadinhas no porão. Uma das peças, sem cabo e coberta de poeira, recebeu atenção especial, mas os investigadores não conseguiram demonstrar de forma conclusiva que ela havia sido usada nos assassinatos.

Não foram encontradas roupas ensanguentadas que pudessem ser atribuídas a Lizzie. A ausência de sangue era um problema para a tese da promotoria, já que a violência dos ataques provavelmente teria produzido respingos sobre o autor.

A investigação também ocorreu em uma época anterior aos testes de DNA, à análise moderna de padrões de sangue e aos protocolos atuais de isolamento de cenas de crime. Muitas pessoas circularam pela residência, objetos foram movimentados e as buscas não seguiram os critérios empregados hoje.

A prisão e o julgamento de Lizzie Borden

Lizzie foi presa em 11 de agosto de 1892, uma semana depois dos assassinatos. Permaneceu detida por vários meses enquanto o processo avançava.

Durante o inquérito, ela prestou depoimentos considerados contraditórios. Sua defesa alegou que Lizzie estava sob efeito de morfina prescrita pelo médico da família, o que poderia ter interferido em sua memória e em sua capacidade de responder com clareza.

O depoimento prestado por Lizzie no inquérito não foi apresentado ao júri durante o julgamento. Os magistrados entenderam que ela havia sido interrogada sem a proteção adequada contra a autoincriminação, em um momento no qual já era tratada como suspeita.

O julgamento começou em 5 de junho de 1893, em New Bedford. O processo atraiu jornalistas, curiosos e representantes de organizações femininas. A repercussão transformou o caso em um dos primeiros grandes julgamentos criminais acompanhados nacionalmente pela imprensa dos Estados Unidos.

A acusação sustentou que Lizzie tinha oportunidade para cometer os dois assassinatos, que suas declarações apresentavam inconsistências e que a destruição do vestido poderia indicar uma tentativa de eliminar provas.

A defesa destacou a falta de uma arma identificada com segurança, a inexistência de roupas cobertas de sangue e a ausência de testemunhas que tivessem visto Lizzie atacar as vítimas. Também questionou a qualidade da investigação e os relatos apresentados contra a acusada.

As convenções sociais daquele período tiveram influência na percepção do caso. A promotoria precisava convencer um júri formado exclusivamente por homens de que uma mulher branca, religiosa, solteira e pertencente a uma família respeitada poderia ter cometido dois assassinatos extremamente violentos.

A defesa apresentou Lizzie como uma mulher incapaz fisicamente e moralmente de executar aqueles atos. O antigo governador de Massachusetts George Robinson, integrante de sua equipe jurídica, teve participação importante nessa estratégia.

Em 20 de junho de 1893, após aproximadamente uma hora e meia de deliberação, o júri declarou Lizzie Borden inocente. A decisão encerrou o processo contra ela, e nenhuma outra pessoa foi posteriormente julgada pelos assassinatos. smithsonianmag.com

Por que Lizzie Borden foi absolvida

A absolvição não significou que o tribunal identificou quem havia cometido o crime. O veredicto indicou que a acusação não conseguiu provar a culpa de Lizzie além de uma dúvida razoável.

Grande parte do processo dependia de indícios. Não havia testemunha ocular, confissão, impressão digital ou arma diretamente ligada à acusada. Também não foi apresentada uma explicação considerada definitiva sobre como Lizzie teria escondido ou eliminado as roupas usadas durante os ataques.

A exclusão do depoimento prestado no inquérito retirou da promotoria algumas das declarações mais contraditórias atribuídas a ela. O episódio do ácido prússico também ficou fora da análise dos jurados.

Além disso, a orientação final dada ao júri foi considerada favorável à defesa por parte da imprensa da época. A posição social de Lizzie e os conceitos então existentes sobre o comportamento feminino provavelmente contribuíram para a formação do veredicto.

A Fall River Historical Society ressalta que Lizzie foi submetida ao devido processo legal e absolvida de todas as acusações. Embora a suspeita tenha permanecido, do ponto de vista jurídico ela deixou o tribunal como uma mulher livre. Fall River Historical Society

As principais dúvidas que permanecem

Uma das maiores questões é a ausência de sangue nas roupas de Lizzie. Caso ela tivesse executado os ataques, precisaria ter trocado de roupa, limpado o corpo e escondido as peças em um intervalo relativamente curto.

Também existem dúvidas sobre o intervalo entre as mortes. O assassino teria permanecido dentro ou próximo da residência depois de matar Abby, aguardado o retorno de Andrew e realizado um segundo ataque sem ser percebido.

As características da casa dificultavam a movimentação discreta. Ainda assim, a entrada de um invasor não pôde ser completamente descartada. O problema é que nenhum estranho foi visto entrando ou saindo, e não havia um motivo evidente de roubo.

Ao longo das décadas, surgiram hipóteses envolvendo Bridget Sullivan, John Morse, Emma Borden, filhos não reconhecidos de Andrew e autores desconhecidos. Nenhuma dessas teorias foi comprovada.

Também houve especulações sobre abuso dentro da família, problemas psicológicos e relações secretas. Grande parte dessas versões surgiu muito tempo depois dos crimes e não possui documentação suficiente. Por isso, devem ser tratadas como interpretações ou elementos de ficção, não como fatos históricos estabelecidos.

O que aconteceu com Lizzie depois do julgamento

Depois de ser absolvida, Lizzie retornou a Fall River. Ela e Emma compraram uma residência maior em uma área valorizada da cidade. A casa recebeu o nome de Maplecroft.

Lizzie passou a utilizar com frequência a forma “Lizbeth” para escrever o próprio nome. Ela viajava, frequentava teatros e mantinha contato com artistas. Apesar da melhoria em seu padrão de vida, não foi plenamente aceita pela elite local.

A absolvição jurídica não eliminou a condenação social. Lizzie foi evitada por antigos conhecidos, observada por curiosos e constantemente associada aos assassinatos.

Por volta de 1905, Emma deixou Maplecroft. As duas irmãs nunca voltaram a viver juntas. As razões exatas do rompimento não são conhecidas. A proximidade de Lizzie com a atriz Nance O’Neil e seu estilo de vida social são citados entre os possíveis motivos, mas não existe uma explicação definitiva.

Lizzie morreu em 1º de junho de 1927, aos 66 anos. Emma morreu nove dias depois. As duas foram enterradas no jazigo da família, no mesmo cemitério onde estavam Andrew e Abby.

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A cantiga que alterou a história

O caso foi imortalizado por uma cantiga popular que dizia que Lizzie havia dado 40 golpes na mãe e 41 no pai. A versão não corresponde aos registros históricos.

Abby era madrasta de Lizzie, não sua mãe biológica. O número de ferimentos também foi exagerado. Além disso, a arma seria uma machadinha, instrumento menor do que um machado tradicional.

Mesmo contendo informações incorretas, a cantiga ajudou a consolidar a imagem de Lizzie como autora dos crimes. Sua repetição ao longo de gerações criou uma espécie de veredicto popular, apesar da absolvição judicial. smithsonianmag.com

Por que o caso ainda desperta interesse

O interesse por Lizzie Borden está relacionado à ausência de uma resposta final. Existem indícios que justificaram a investigação contra ela, mas também há falhas importantes que impedem uma conclusão segura.

O caso permite discutir os limites da prova circunstancial, a influência da imprensa sobre processos criminais, os preconceitos sociais de uma determinada época e a diferença entre absolvição judicial e inocência reconhecida pela opinião pública.

Produções culturais frequentemente apresentam Lizzie como assassina, vítima, mulher reprimida ou símbolo de rebeldia. Essas interpretações podem ser interessantes do ponto de vista artístico, mas não devem ser confundidas com os documentos do processo.

Filmes e séries também acrescentam romances, conspirações e motivações que não foram comprovados. A proximidade de Lizzie com Nance O’Neil, por exemplo, ocorreu anos depois do julgamento. Qualquer representação da atriz aconselhando Lizzie durante o processo altera a cronologia conhecida.

A coleção mantida pela Fall River Historical Society reúne fotografias da cena, documentos forenses, cartas, objetos pessoais e peças utilizadas no julgamento. Esse material demonstra que a pesquisa histórica sobre o caso permanece ativa, embora não tenha produzido uma identificação definitiva do autor. Fall River Historical Society

Lizzie Borden foi absolvida e morreu sem admitir participação nos assassinatos. A Justiça não encontrou fundamento suficiente para condená-la, mas também não ofereceu uma solução alternativa para as mortes de Andrew e Abby.

Essa ausência de resposta explica por que o caso sobreviveu por mais de um século. Lizzie ocupa um espaço incomum entre a pessoa histórica e a personagem construída pela imprensa e pela cultura popular. Sua culpa nunca foi provada em tribunal, sua inocência nunca foi aceita por todos e o verdadeiro responsável pelos crimes permanece desconhecido.

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