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A frase do Lula: por que a frase sobre mulheres aprenderem a “tomar toque” desde pequenas é problemática

A frase do Lula: Lula afirmou que mulheres aprendem a “tomar toque” desde pequenas ao falar sobre câncer de próstata. Entenda o contexto da declaração, os dados sobre violência sexual contra crianças e mulheres e a situação do Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais.

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que as mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”, feita durante um discurso em Belém, no Pará, provocou repercussão nas redes sociais e abriu uma discussão que ultrapassa a disputa política. Embora a frase tenha sido pronunciada dentro de um contexto relacionado à prevenção e ao tratamento do câncer de próstata, a escolha das palavras chama atenção quando confrontada com as recomendações médicas para meninas e adolescentes e, principalmente, com os números da violência sexual no Brasil.

A declaração foi feita em 28 de setembro de 2026. Lula comentava a resistência de alguns homens aos exames relacionados à próstata e falava sobre avanços no tratamento da doença. Nesse contexto, afirmou que homens não gostam do exame de toque e estabeleceu uma comparação com as mulheres, dizendo que elas aprenderiam a receber esse tipo de procedimento desde pequenas. A declaração fazia parte de um discurso sobre saúde masculina e prevenção ao câncer.

Reconhecer o contexto, entretanto, não impede uma análise crítica da frase. Existe uma diferença entre afirmar que alguém pretendia normalizar a violência sexual e questionar se a construção utilizada é adequada, verdadeira do ponto de vista médico e compatível com os princípios de proteção de crianças e adolescentes.

É justamente nessa segunda questão que está o principal problema da declaração.

Meninas não são ensinadas a receber exames de toque desde pequenas

A afirmação de que mulheres aprenderiam a receber “toque desde pequenas” não corresponde à forma como a assistência ginecológica é organizada.

Meninas não são submetidas rotineiramente a exames vaginais ou pélvicos invasivos para que se acostumem a esse tipo de procedimento. Na infância e na adolescência, um exame íntimo deve decorrer de uma necessidade clínica específica, levando em consideração sintomas, histórico da paciente, idade e avaliação médica. Não existe recomendação para que crianças passem por esse tipo de exame como parte de uma rotina de prevenção.

Também é necessário diferenciar os procedimentos. O exame pélvico bimanual, popularmente associado ao chamado “toque ginecológico”, não é a mesma coisa que o exame preventivo do câncer do colo do útero.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer estabelecem que o rastreamento do câncer do colo do útero deve começar aos 25 anos, para mulheres ou outras pessoas com colo do útero que já tiveram atividade sexual, e seguir até os 64 anos. Desde 2025, o teste molecular de DNA HPV passou a ser o método primário de rastreamento no SUS, enquanto o Papanicolau permanece disponível onde a nova tecnologia ainda não foi implantada. Serviços e Informações do Brasil

O próprio INCA explica por que o rastreamento não é indicado rotineiramente antes dos 25 anos. Nessa faixa etária são frequentes infecções pelo HPV e lesões de baixo grau que, na maioria das vezes, regridem espontaneamente. O rastreamento precoce pode levar a investigações e intervenções desnecessárias. Serviços e Informações do Brasil

Mesmo o Papanicolau não deve ser confundido simplesmente com um “toque”. Na coleta tradicional, um espéculo é introduzido para permitir a visualização do colo do útero e células são retiradas com uma espátula e uma pequena escova. Trata-se de um procedimento específico de rastreamento, destinado a uma determinada população e realizado em intervalos definidos, e não de uma prática à qual meninas seriam submetidas desde a infância. Serviços e Informações do Brasil

Isso torna a comparação feita pelo presidente especialmente imprecisa. Não existe uma trajetória médica normal na qual a menina passe a infância recebendo exames íntimos até se tornar uma mulher “acostumada ao toque”. Ao contrário, os protocolos de saúde limitam procedimentos íntimos àquilo que possui indicação clínica e reservam o rastreamento rotineiro do câncer do colo do útero para a vida adulta.

Frequentar consultas ginecológicas não significa ser submetida rotineiramente a exames vaginais. Na infância e na adolescência, exames íntimos dependem de indicação clínica, enquanto o rastreamento regular do câncer do colo do útero começa apenas aos 25 anos.

Nem o exame de próstata funciona da maneira sugerida pela comparação

A comparação feita durante o discurso também simplifica as recomendações adotadas para o câncer de próstata.

Durante décadas, campanhas de conscientização ajudaram a associar a prevenção da doença ao exame de toque retal. Essa associação acabou se tornando extremamente presente no imaginário popular.

As recomendações oficiais, porém, são mais complexas.

O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer não recomendam atualmente um programa de rastreamento sistemático do câncer de próstata para todos os homens assintomáticos. Benefícios e possíveis riscos dos exames devem ser discutidos individualmente entre médico e paciente.

Isso significa que não existe uma recomendação segundo a qual todo homem, ao atingir determinada idade, necessariamente tenha de realizar periodicamente o toque retal.

O PSA, realizado por meio de uma amostra de sangue, o exame digital retal, exames de imagem e eventualmente a biópsia podem integrar diferentes etapas da investigação, dependendo das características de cada paciente.

Portanto, a comparação entre mulheres acostumadas ao toque desde crianças e homens que resistiriam ao toque da próstata não representa adequadamente nem a rotina médica feminina nem as atuais recomendações para o câncer de próstata.

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Uma em cada quatro meninas de 13 a 17 anos relata situação de toque ou contato contra a vontade

A escolha das palavras se torna ainda mais delicada quando confrontada com os dados brasileiros sobre violência sexual.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, divulgada pelo IBGE em 2026, perguntou a adolescentes entre 13 e 17 anos se eles já haviam passado por situações nas quais alguém os tocou, manipulou, beijou ou expôs partes de seus corpos contra a vontade.

Entre todos os estudantes pesquisados, 18,5% responderam positivamente.

Entre as meninas, o percentual chegou a 26%.

Isso significa que aproximadamente uma em cada quatro meninas de 13 a 17 anos pesquisadas pelo IBGE informou já ter passado por algum tipo de toque, manipulação, beijo ou exposição corporal contra sua vontade. Entre os meninos, o percentual foi de 10,9%.

O levantamento também mostrou piora quando comparado à pesquisa anterior. Entre 2019 e 2024, aumentou a proporção de adolescentes que relataram esse tipo de experiência. Entre as meninas, o avanço foi de 5,9 pontos percentuais.

É nesse cenário que a expressão “desde pequenas” ganha uma dimensão particularmente sensível.

Não porque o presidente estivesse falando sobre abuso sexual. O contexto deixa claro que o assunto era saúde. O problema é outro. O Brasil possui um contingente expressivo de meninas que precisa aprender justamente a identificar quando um toque é inadequado, compreender limites corporais, pedir ajuda e denunciar situações de violência.

A mensagem de proteção à infância caminha em direção oposta à ideia de habituação ao toque.

Crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas de estupro no Brasil

Os números da segurança pública ajudam a dimensionar o problema.

Em 2023, o Brasil registrou 83.988 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O perfil das vítimas chama atenção. Cerca de 88% eram do sexo feminino. Crianças com até 13 anos representavam mais de 60% dos registros. Quando os adolescentes entre 14 e 17 anos são incluídos, menores de idade correspondiam a mais de três quartos das vítimas registradas.

Outra característica merece atenção. Em grande parcela das ocorrências envolvendo vítimas mais jovens, o agressor pertence ao círculo familiar ou de convivência da criança.

Esse dado ajuda a compreender por que campanhas de prevenção à violência sexual infantil insistem tanto na educação sobre limites corporais.

Em muitos casos, o risco não vem de um desconhecido na rua. Ele está próximo da criança, dentro de ambientes nos quais ela deveria estar protegida.

Em 2024, o país atingiu o maior número de estupros da série histórica

O cenário chegou a novo patamar em 2024.

O Brasil registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, o maior número desde o início da série histórica acompanhada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Meninas e mulheres representaram 87,7% das vítimas.

Crianças e adolescentes continuaram aparecendo de forma desproporcional nas estatísticas. Somadas as diferentes faixas etárias até os 17 anos, elas novamente representaram a maior parcela das vítimas registradas.

Grande parte dos crimes aconteceu dentro de residências, e familiares apareceram de maneira recorrente entre os autores.

São números que ajudam a explicar por que qualquer discussão pública envolvendo crianças, mulheres e o conceito de toque exige precisão.

Em 2025 o patamar permaneceu elevado

Em 2025, o Brasil registrou 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, número inferior ao observado em 2024. Mesmo com a redução, o perfil das vítimas permaneceu semelhante, com forte concentração entre mulheres, meninas e crianças.

Mais de 60% das vítimas tinham até 13 anos e quase 88% eram do sexo feminino.

A redução dos boletins também precisa ser interpretada com cautela porque crimes sexuais apresentam elevada subnotificação. Nem toda violência chega às autoridades policiais.

Quanto a 2026, ainda não existe um número anual consolidado, pois o ano está em andamento.

Assédio e importunação sexual também cresceram

Os dados sobre outros crimes sexuais ajudam a completar o cenário.

Em 2023, o Brasil registrou 7.796 casos de assédio sexual e 36.128 casos de importunação sexual.

Em 2024, esses números subiram para 8.353 registros de assédio sexual e 37.972 registros de importunação sexual.

A tendência permaneceu em 2025, quando foram contabilizados 9.031 registros de assédio sexual e 41.425 registros de importunação sexual.

Esses números não significam necessariamente que toda forma de violência sexual tenha aumentado exatamente na mesma proporção. Os registros policiais também são influenciados pela disposição das vítimas para denunciar, pelo acesso aos órgãos públicos e pela forma como ocorrências são classificadas.

Ainda assim, demonstram que assédio e importunação sexual continuam sendo problemas relevantes no país.

Cadastro Nacional de Pedófilos foi aprovado em 2024, mas ainda enfrenta dificuldades para sair do papel em 2026

O debate sobre a proteção de crianças também envolve uma questão institucional que ganhou relevância nos últimos anos.

Em novembro de 2024, foi sancionada a Lei nº 15.035, que determinou a criação do Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais.

A norma estabeleceu que o sistema deve ser desenvolvido a partir dos dados constantes do Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Crime de Estupro e permitir consulta pública a informações de pessoas condenadas por crimes sexuais.

A legislação também alterou o Código Penal para possibilitar a consulta pública do nome completo, CPF, tipificação penal e informações sobre a pena de pessoas condenadas em primeira instância por determinados crimes contra a dignidade sexual, ressalvada a possibilidade de manutenção do sigilo por decisão judicial fundamentada.

Lula sancionou a criação do cadastro, mas vetou uma parte do projeto. O dispositivo vetado estabelecia que as informações dos condenados permanecessem disponíveis para consulta pública durante dez anos depois do cumprimento integral da pena, salvo em caso de reabilitação.

O governo justificou o veto afirmando que a manutenção dos dados durante esse período adicional violaria princípios constitucionais como proporcionalidade, devido processo legal, intimidade, vida privada, honra e imagem do condenado.

Em dezembro de 2025, o Congresso Nacional analisou o veto presidencial e decidiu mantê-lo. Portanto, a regra que permitiria conservar esses dados públicos durante dez anos após o término da pena não entrou em vigor.

Em 4 de dezembro de 2025, o veto presidencial foi mantido pelo Senado por 59 votos a 13. Na votação, “Sim” significava manter o veto, enquanto “Não” representava sua rejeição. Como a manutenção foi confirmada pelos senadores, o dispositivo não chegou a ser apreciado pela Câmara dos Deputados.

A votação reuniu parlamentares de diferentes campos políticos. Entre os que votaram pela manutenção do veto estavam Flávio Bolsonaro, Damares Alves, Sergio Moro, Hamilton Mourão, Rogério Marinho, Romário, Marcos Pontes, Ciro Nogueira, Tereza Cristina, Jaques Wagner, Randolfe Rodrigues, Humberto Costa e Paulo Paim. Entre os 13 que votaram para derrubá-lo estavam Alessandro Vieira, Carlos Viana, Cleitinho, Eduardo Girão, Fabiano Contarato, Jaime Bagattoli, Luis Carlos Heinze, Oriovisto Guimarães e Wilder Morais.

O veto atingia especificamente o trecho que estabelecia que os dados de condenados por crimes sexuais permaneceriam disponíveis para consulta pública durante dez anos após o cumprimento integral da pena, salvo em caso de reabilitação.

A questão, entretanto, não terminou com a sanção da lei.

Ao longo de 2026 surgiram cobranças sobre a implementação efetiva do cadastro. Em abril, um requerimento aprovado pela Câmara pediu ao Ministério da Justiça e Segurança Pública informações sobre o funcionamento do sistema.

Em maio de 2026, outro projeto de lei foi apresentado justamente para definir a competência do Ministério da Justiça na criação, manutenção e gestão do cadastro em colaboração com o Conselho Nacional de Justiça, estabelecer fonte de financiamento e fixar prazo para sua implementação. A própria existência da proposta demonstra que ainda havia questões práticas e institucionais pendentes sobre a execução da lei.

A falta de implementação também chegou ao Supremo Tribunal Federal. Em resposta a uma ação que alegava omissão na criação do cadastro, o governo federal negou que houvesse omissão deliberada e atribuiu a demora a dificuldades técnicas e operacionais, além de questões normativas deixadas em aberto pela legislação.

A frase do Lula: O problema da frase está na normalização involuntária do conceito de toque

Diante desse cenário, é possível fazer uma crítica à declaração presidencial sem retirar a fala de seu contexto ou atribuir a Lula uma intenção que não pode ser demonstrada.

A afirmação foi feita durante uma discussão sobre saúde masculina.

Esse fato precisa permanecer registrado.

Ao mesmo tempo, a construção segundo a qual mulheres aprendem a “tomar toque desde pequenas” pode ser considerada inadequada porque apresenta como natural uma experiência que não corresponde às recomendações médicas para meninas e adolescentes.

Mais importante ainda, emprega a ideia de crianças aprendendo a aceitar toques em um país onde uma parcela significativa das meninas relata ter sido tocada ou manipulada contra a própria vontade.

A prevenção da violência sexual infantil se baseia justamente em ensinar limites.

Crianças precisam aprender que seu corpo possui fronteiras. Precisam saber que determinados contatos podem ser inadequados. Precisam compreender que podem dizer não, procurar um adulto de confiança e contar quando alguma coisa as deixa desconfortáveis.

Em uma consulta médica, naturalmente podem existir situações em que um profissional precise examinar determinadas partes do corpo. A diferença está na finalidade do procedimento, na necessidade clínica, na explicação, no ambiente adequado e na proteção da criança ou adolescente.

A mensagem não deve ser de habituação ao toque.

Deve ser de compreensão e proteção do próprio corpo.

Prevenção ao câncer de próstata não precisa recorrer a comparações com o corpo feminino

É legítimo incentivar homens a procurar atendimento médico. A menor procura masculina por serviços de saúde é objeto de preocupação de profissionais e políticas públicas há anos.

Essa discussão, porém, pode ser realizada sem recorrer à comparação de que mulheres se acostumariam desde pequenas a procedimentos íntimos.

A prevenção e o diagnóstico do câncer de próstata podem ser abordados por meio de informações sobre sintomas, fatores de risco, avaliação clínica, acompanhamento médico e decisão compartilhada sobre exames.

Da mesma maneira, a saúde feminina envolve uma extensa variedade de cuidados que não se resume ao exame ginecológico.

Mulheres realizam exames de sangue, exames de imagem, vacinação contra HPV, rastreamentos específicos conforme idade e risco e diferentes formas de acompanhamento clínico.

Reduzir essa relação com a saúde à ideia do “toque” simplifica tanto a medicina feminina quanto a masculina.

O contexto precisa ser preservado, mas as palavras também importam

Ao dizer que mulheres aprendem a “tomar toque desde pequenas”, Lula aparentemente pretendia comparar comportamentos de homens e mulheres diante dos cuidados médicos. A formulação, contudo, produz uma associação problemática.

Em um país onde uma em cada quatro meninas de 13 a 17 anos pesquisadas pelo IBGE afirma já ter passado por toque, manipulação, beijo ou exposição corporal contra sua vontade, a sociedade precisa transmitir às crianças uma mensagem muito clara.

Meninas não precisam aprender a se acostumar a serem tocadas.

Precisam aprender a compreender seu próprio corpo, reconhecer limites, distinguir um procedimento médico legítimo de um contato inadequado e saber que podem procurar ajuda quando alguma coisa está errada.

Essa preocupação se torna ainda mais relevante quando o país possui uma lei determinando a criação de um cadastro nacional para condenados por crimes sexuais e, quase dois anos depois de sua sanção, ainda discute como tornar esse instrumento plenamente operacional.

Quando o assunto envolve crianças e violência sexual, a mensagem transmitida desde cedo deveria ser simples: o corpo da criança precisa ser protegido, seus limites precisam ser respeitados e qualquer toque deve ser compreendido dentro de um contexto de segurança, necessidade e consentimento adequado à idade.

https://camilaabdo.com/
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