Marketing Digital

Marketing de influência em 2026: as marcas trocaram o glamour pela rotina comum

As marcas trocaram o glamour pela rotina comum. Vídeos de rotina profissional crescem no TikTok, Instagram e LinkedIn enquanto a receita de criadores nos EUA chega a US$ 21,1 bilhões em 2026

A economia dos criadores encontrou um novo produto, e ele não tem viagem para Dubai, cenário montado nem equipe de produção. O que mais cresce hoje no TikTok, no Instagram, no YouTube e no LinkedIn é o vídeo de rotina comum: o plantão de uma enfermeira, o expediente de um analista financeiro, o turno de um caminhoneiro, a rotina de quem acorda às cinco da manhã para abrir uma padaria. A tese que sustenta o movimento é simples de enunciar e difícil de executar. Quanto menos produzido o conteúdo parece, mais confiança ele gera, e confiança é o que as marcas estão comprando.

Os números ajudam a dimensionar a virada. A receita dos criadores de mídia social nos Estados Unidos deve alcançar US$ 21,1 bilhões em 2026, segundo previsão da consultoria eMarketer apresentada em fevereiro deste ano. Em janeiro, a mesma consultoria projetava US$ 20,6 bilhões, o que representaria uma alta de 16,2% sobre 2025. O dado mais revelador, porém, não está no total, e sim na distribuição. Segundo a eMarketer, 49,9% do investimento das marcas em criadores hoje vai para nano e microinfluenciadores, perfis com audiências pequenas, contra menos de 20% em anos anteriores. Metade do dinheiro deixou de ir para quem tem milhões de seguidores.

O que separa receita de criadores de investimento das marcas

Antes de seguir, vale uma distinção que costuma se perder na cobertura do setor. Receita de criadores é o total que os próprios criadores faturam, somando conteúdo patrocinado, repasses das plataformas e comissões de afiliados. Segundo a eMarketer, o conteúdo patrocinado responde por 59% desse bolo, os pagamentos das plataformas por 24,4% e o marketing de afiliados por 8,2%. Investimento em marketing de influência é outra conta, menor, que mede apenas o que os anunciantes destinam a campanhas com criadores. Esse segundo indicador deve crescer 15,7% em 2026 e alcançar US$ 13,7 bilhões em 2027, também pela projeção da eMarketer. Os dois números descrevem o mesmo fenômeno por ângulos diferentes, e trocá-los distorce a leitura do mercado.

As marcas trocaram o glamour pela rotina comum. Por que as marcas migraram para perfis menores?

A explicação mais citada pelo mercado é o engajamento. Nanoinfluenciadores no TikTok registram taxa média de engajamento de 10,3%, e no Instagram, de 6,23%, patamares que perfis grandes não alcançam. Como nano e micro representam a esmagadora maioria do ecossistema, 75,9% dos influenciadores no Instagram e 87,7% no TikTok, segundo levantamentos citados pela eMarketer, há oferta abundante para as marcas negociarem.

Existe também um argumento de eficiência publicitária. Anúncios veiculados por criadores retêm a atenção do público por 17,8 segundos em média antes de serem pulados, contra 7,9 segundos do conteúdo publicitário tradicional, e mantêm visibilidade 1,4 vez maior. Para o anunciante, o cálculo é direto: paga-se menos por criador, contrata-se um número maior deles e distribui-se o risco de uma campanha inteira depender de um único nome.

A contrapartida é operacional. Gerenciar cinquenta nanoinfluenciadores exige processo, contrato, briefing e mensuração em escala que uma campanha com dois nomes conhecidos não exige. É por isso que 74% dos profissionais de marketing já usam inteligência artificial em marketing de influência, segundo pesquisa da Linqia, sobretudo para geração de ideias criativas (78,4%), redação de briefings (68,9%) e organização de fluxos de trabalho (63,5%).

A saturação da inteligência artificial empurrou o pêndulo

Há um segundo motor por trás da valorização do conteúdo cru, e ele é uma reação. Depois que ferramentas generativas inundaram as redes em 2025, a preferência do público por conteúdo produzido por inteligência artificial despencou. Levantamento da agência Billion Dollar Boy mostra que 26% dos consumidores preferem conteúdo de criador gerado por IA hoje, contra 60% em 2023. Reportagem do The Guardian publicada em dezembro de 2025 estimou que mais de 20% dos vídeos exibidos a novos usuários do YouTube já se enquadram na categoria de material sintético de baixa qualidade.

O mercado leu o recado. Em reportagem do Digiday publicada em 14 de janeiro de 2026, Lisa Singelyn, vice-presidente sênior de gestão de celebridades e influenciadores da Platinum Rye Entertainment, resumiu o que os anunciantes passaram a pedir: “As marcas preferem ver a realidade da vida humana. Seja uma cama não arrumada, roupas não guardadas ou o cabelo despenteado.” Na mesma reportagem, Becky Owen, diretora de marketing da Billion Dollar Boy, sustentou que “a inteligência artificial não consegue replicar a bagunça da criatividade humana”, e que o público hoje procura justamente a imperfeição.

Nesse contexto, a rotina comum deixa de ser conteúdo pobre e passa a ser prova de autenticidade. O quarto desarrumado ao fundo, a iluminação ruim do vestiário e o áudio do refeitório funcionam como selo de procedência humana em um ambiente saturado de material sintético.

O LinkedIn entrou na disputa

O movimento não ficou restrito às plataformas de entretenimento. O LinkedIn ampliou em 2026 sua estrutura para criadores e vídeo, com o lançamento do Top Voices 360, camada de patrocínio que reúne programas editoriais próprios, publicações cobrandadas e eventos, além da expansão da ferramenta BrandLink, que passou a integrar mais de 40 veículos de mídia e ganhou integração com a Stripe para pagamento de criadores.

Os dados do próprio LinkedIn explicam a aposta. Segundo o levantamento Global B2B Marketing Outlook, feito com 1.299 profissionais de marketing nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Índia entre 14 de janeiro e 5 de fevereiro de 2026, 82% dos que trabalham com criadores consideram essas campanhas essenciais para obter retorno mensurável, 81% dos diretores de marketing B2B afirmam que vídeo acelera o ciclo de vendas e 56% dos compradores corporativos recorrem à opinião de criadores na etapa final da decisão de compra.

É aí que o vídeo de rotina profissional encontra terreno mais fértil. Um engenheiro que mostra o próprio dia de trabalho cumpre, para uma marca de software industrial, a mesma função que uma influenciadora de beleza cumpre para uma marca de cosméticos, com a diferença de que a audiência é qualificada por profissão e cargo.

Como o movimento chega ao Brasil

O mercado brasileiro acompanha a tendência com escala própria. Levantamento da HypeAuditor sobre o país aponta mais de 4,4 milhões de criadores apenas no Instagram, com nano e microinfluenciadores respondendo por 85% do ecossistema, proporção ainda maior que a observada nos mercados centrais.

Pesquisas divulgadas em julho de 2026 e baseadas em dados da Billion Dollar Boy, da Rakuten Advertising e do relatório The State of Influencer Marketing 2026, da Aspire, indicam que 74% dos profissionais de marketing pretendem aumentar o investimento em influência em 2026 e que 54% priorizam justamente nano e microinfluenciadores, enquanto 32% planejam ampliar aportes em perfis intermediários. Do lado do consumidor, 80% afirmam confiar em recomendações de influenciadores, 61% compraram algo por indicação de criador nos últimos seis meses e 30% dos brasileiros descobrem produtos novos diariamente por meio deles.

Os limites do modelo

O entusiasmo do setor convive com sinais de desgaste que merecem atenção de quem contrata. O mesmo conjunto de pesquisas aponta que 84% dos consumidores deixam de seguir um influenciador quando percebem falta de autenticidade, e que 37% dos criadores de conteúdo já consideraram abandonar a atividade, indicador de pressão sobre a base que sustenta o mercado. A desconfiança também é mensurável: 26% dos consumidores dizem desconfiar do marketing de influência, contra 11% que desconfiam da publicidade em geral, e 70% reagem negativamente ao descobrir que um pagamento não foi declarado.

Há ainda uma tensão conceitual no coração da estratégia. No momento em que a rotina comum se torna formato publicitário rentável, ela deixa de ser espontânea e passa a ser encenada, o que tende a corroer exatamente o atributo que a tornou valiosa. Eduardo de Barros, presidente da IDK Brasil, pondera que “o mercado não está abandonando os grandes influenciadores”, e defende carteiras equilibradas entre perfis de tamanhos diferentes em vez da migração integral para os menores.

O que muda na prática para quem contrata

Para as marcas, a leitura dos dados sugere três ajustes concretos. O primeiro é orçamentário, com a divisão do investimento entre um número maior de criadores menores em vez da concentração em poucos nomes. O segundo é operacional, já que campanhas distribuídas exigem processo, contrato e mensuração padronizados, terreno em que a automação deixou de ser diferencial e virou requisito. O terceiro é editorial, e talvez o mais difícil: aceitar entregas que não passam pelo padrão estético habitual da marca, porque é justamente o acabamento imperfeito que sustenta o resultado.

Para os criadores, o recado é que audiência pequena deixou de ser obstáculo comercial. O ativo negociável passou a ser a especificidade, entendida como a combinação de um nicho definido, uma rotina verificável e uma comunidade que confia em quem fala. Vale lembrar que metade do investimento do setor já está indo para esse perfil.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo