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EUA discutem criar poder de veto sobre o lançamento de inteligências artificiais

EUA discutem criar poder de veto sobre o lançamento de inteligências artificiais: Proposta bipartidária pode impor dever de cuidado a desenvolvedores, permitir auditorias governamentais e impedir o lançamento de sistemas associados a riscos biológicos, nucleares e cibernéticos

Senadores republicanos e democratas dos Estados Unidos negociam uma proposta que pode conceder ao governo federal autoridade para impedir o lançamento de modelos avançados de inteligência artificial considerados inseguros. O texto em discussão também pretende estabelecer um dever de cuidado para as empresas responsáveis pelo desenvolvimento desses sistemas, obrigando-as a demonstrar que adotaram precauções razoáveis contra riscos de grande escala.

A iniciativa ainda não foi transformada em um projeto definitivo. Conceitos centrais, como o significado jurídico de risco catastrófico, o nível de prova exigido das empresas e a estrutura do eventual bloqueio, permanecem em negociação. Mesmo assim, a proposta chama atenção por representar uma das intervenções federais mais fortes já consideradas nos Estados Unidos sobre modelos de fronteira, categoria que reúne os sistemas com capacidades mais avançadas disponíveis em determinado momento.

Segundo informações publicadas pela Reuters em 11 de setembro, negociadores pretendem criar mecanismos para evitar que modelos sejam lançados quando apresentarem riscos relevantes à segurança nacional ou à população. Entre os exemplos discutidos estão a possibilidade de uma IA auxiliar pessoas ou organizações na produção de armas biológicas ou nucleares e sua capacidade de viabilizar ataques cibernéticos sofisticados.

As conversas envolvem o líder da maioria no Senado, John Thune, o presidente da Comissão de Comércio, Ted Cruz, e a senadora democrata Amy Klobuchar. Maria Cantwell, principal representante democrata na Comissão de Comércio, também participa das discussões. A composição demonstra que existe interesse bipartidário no tema, embora isso ainda não represente consenso sobre o conteúdo final nem garantia de aprovação.

O que significa o dever de cuidado para empresas de inteligência artificial

O conceito de dever de cuidado é usado em diferentes áreas do direito para estabelecer que uma pessoa ou empresa deve adotar precauções compatíveis com riscos previsíveis. Aplicado à inteligência artificial, o princípio poderia exigir que desenvolvedores identifiquem perigos associados aos modelos, realizem testes antes da liberação, corrijam vulnerabilidades conhecidas e demonstrem que não ignoraram ameaças relevantes.

Na formulação em debate no Senado, empresas responsáveis por sistemas avançados teriam de mostrar que tomaram medidas razoáveis para reduzir a possibilidade de danos graves. O secretário de Comércio dos Estados Unidos poderia solicitar provas dessas medidas. Auditores do governo também poderiam testar diretamente os produtos, segundo uma atualização publicada pela Reuters em 14 de setembro.

A palavra razoável será decisiva. Até agora, não foi divulgado um critério objetivo que determine quantos testes seriam suficientes, quais resultados impediriam um lançamento ou por quanto tempo uma empresa precisaria manter um modelo retido. Sem essas definições, ainda não é possível calcular o alcance exato das obrigações ou as consequências de uma eventual violação.

O dever de cuidado pode funcionar de maneira diferente de uma lista fixa de proibições. Em vez de estabelecer somente condutas específicas, a lei poderia exigir que cada desenvolvedor avaliasse as capacidades e os riscos de seu próprio sistema. Essa abordagem permitiria acompanhar mudanças tecnológicas, mas também criaria disputas sobre quais medidas seriam proporcionais em cada caso.

Para empresas como OpenAI, Anthropic e Google, a obrigação poderia alterar o processo de desenvolvimento. Avaliações que atualmente são conduzidas de forma voluntária ou com base em políticas internas passariam a ter importância jurídica. Registros de testes, relatórios de segurança, decisões de lançamento e respostas a incidentes poderiam ser usados para demonstrar se a companhia agiu de maneira responsável.

EUA discutem criar poder de veto sobre o lançamento de inteligências artificiais. Governo poderá impedir o lançamento de uma IA considerada insegura

O ponto de maior impacto é a possibilidade de o governo federal bloquear a liberação de determinados modelos. As fontes consultadas pela Reuters afirmaram que os negociadores desejam criar esse poder, mas a arquitetura ainda não foi definida. Também está em debate qual seria a participação dos tribunais federais.

Uma empresa atingida pela decisão poderia contestá-la judicialmente. Essa revisão seria uma proteção contra medidas arbitrárias e permitiria discutir se a autoridade apresentou fundamento técnico suficiente. Ainda não está claro, porém, se o governo poderia suspender o lançamento antes da manifestação de um juiz, se precisaria buscar uma ordem judicial ou se haveria um procedimento administrativo anterior.

Por essa razão, a expressão poder de veto ajuda a transmitir a importância política da negociação, mas não descreve uma competência já estabelecida. Não existe, neste momento, uma autoridade federal nova e plenamente definida capaz de proibir unilateralmente qualquer modelo de IA. O que existe é uma proposta em elaboração que poderá criar algum mecanismo de bloqueio caso seja aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente.

Também não se sabe quais modelos seriam alcançados. As discussões indicam foco nos sistemas de capacidades mais avançadas. Uma possível lei poderia utilizar critérios relacionados à capacidade computacional, ao desempenho em avaliações técnicas ou à habilidade de executar tarefas específicas. Esses parâmetros ainda não foram divulgados.

A delimitação será importante para evitar que regras destinadas aos maiores laboratórios sejam aplicadas da mesma forma a empresas pequenas ou sistemas de baixo risco. Ao mesmo tempo, um critério excessivamente restrito poderia deixar de fora modelos que desenvolvam capacidades perigosas com menor quantidade de processamento.

Armas biológicas, ameaças nucleares e ataques cibernéticos

Os riscos mencionados pelos senadores estão ligados principalmente à segurança nacional. Ted Cruz afirmou que trabalha com Thune e Klobuchar em uma legislação para tratar de ameaças biológicas e nucleares. Klobuchar defendeu a participação de especialistas do governo na verificação e nos testes dos modelos. Cantwell afirmou que os sistemas mais avançados deveriam ser avaliados por cientistas de laboratórios nacionais para verificar se poderiam facilitar ataques cibernéticos sofisticados ou a produção de armas.

Essas preocupações não significam que um modelo atual possa construir sozinho uma arma nuclear ou um agente biológico. O risco discutido envolve a capacidade de fornecer conhecimento técnico, acelerar etapas de pesquisa, identificar métodos ou orientar pessoas com acesso a materiais e instalações. A avaliação busca descobrir se a IA reduz de forma significativa as barreiras que normalmente impedem atores sem conhecimento especializado de executar atividades perigosas.

No campo cibernético, modelos avançados podem ajudar a localizar vulnerabilidades, escrever códigos e automatizar partes de uma invasão. As mesmas capacidades podem ser usadas para defesa, correção de falhas e proteção de sistemas. O desafio regulatório consiste em medir quando o benefício defensivo é superado pelo risco de uso ofensivo ou por comportamentos não previstos.

A proposta tende a depender de testes especializados porque respostas comuns de um chatbot não revelam todo o alcance de um modelo. Um sistema pode aparentar segurança em conversas simples e apresentar desempenho muito diferente quando recebe ferramentas, acesso a ambientes computacionais ou instruções divididas em várias etapas.

Por que OpenAI, Anthropic e Google seriam diretamente afetadas

A legislação em negociação teria como alvo principal os desenvolvedores dos modelos de fronteira. Nos Estados Unidos, OpenAI, Anthropic e Google estão entre as empresas que treinam sistemas com maiores níveis de capacidade. Elas possuem recursos computacionais, equipes de pesquisa e infraestrutura capazes de produzir modelos que avançam rapidamente em programação, ciência e atuação autônoma.

Caso o dever de cuidado seja aprovado, essas companhias poderão ter de compartilhar evidências de segurança com o Departamento de Comércio, permitir avaliações governamentais e aceitar a possibilidade de atraso ou suspensão de um lançamento. A mudança reduziria a autonomia das empresas para decidir, com base apenas em critérios internos, quando um produto está pronto para chegar ao mercado.

O efeito comercial também seria significativo. O setor opera em uma disputa intensa por usuários, contratos corporativos e liderança tecnológica. Atrasar um modelo por semanas ou meses pode beneficiar concorrentes. Uma regra federal comum poderia diminuir o incentivo para que cada companhia reduza testes a fim de lançar primeiro, mas também poderia aumentar custos e favorecer organizações que já possuem grandes estruturas de conformidade.

Esse possível resultado alimenta críticas de que regulações complexas podem consolidar a posição das empresas dominantes. Laboratórios menores poderiam enfrentar dificuldades para pagar auditorias, produzir documentação e responder a solicitações governamentais. O desenho final precisaria equilibrar a fiscalização dos sistemas mais avançados com a preservação da concorrência.

Proposta pode limitar leis estaduais sobre inteligência artificial

Outro ponto sensível é a possível substituição de normas estaduais por um padrão federal. Parte da negociação impediria que os Estados aplicassem leis próprias sobre determinados riscos associados ao desenvolvimento de modelos. O argumento favorável é que uma tecnologia distribuída nacionalmente não deveria obedecer a dezenas de regimes incompatíveis.

A Casa Branca já defendeu um padrão nacional que reduza a fragmentação regulatória. Empresas do setor também afirmam que regras diferentes em cada Estado aumentam custos e dificultam a inovação. Uma estrutura federal poderia definir o mesmo procedimento de testes e lançamento em todo o país.

Os críticos respondem que a substituição de leis estaduais pode eliminar proteções existentes antes que uma fiscalização federal equivalente esteja funcionando. Estados como a Califórnia aprovaram regras sobre avaliações de risco, transparência e ameaças biológicas. Se essas normas forem afastadas por uma lei federal mais limitada, o resultado poderá ser uma redução, e não um aumento, da supervisão.

O histórico político mostra que o tema enfrenta resistência. Em julho de 2025, o Senado votou por 99 a 1 para retirar de uma proposta orçamentária uma moratória federal sobre regulações estaduais de IA, conforme registrou a Reuters. Na ocasião, parlamentares dos dois partidos e governadores republicanos defenderam a capacidade dos Estados de proteger consumidores e crianças.

A negociação atual parece mais delimitada porque a restrição atingiria leis relacionadas a riscos específicos dos modelos, e não necessariamente toda regulação estadual sobre inteligência artificial. Ainda assim, o alcance real dependerá da redação final. Termos amplos poderiam provocar disputas sobre normas de proteção ao consumidor, segurança de produtos, transparência e responsabilidade civil.

Estados Unidos ainda não possuem uma lei federal geral para incidentes de IA

O debate ocorre em um cenário regulatório fragmentado. Não existe nos Estados Unidos uma lei federal abrangente que obrigue desenvolvedores como OpenAI e Anthropic a comunicar todo comportamento perigoso identificado durante testes. Regras gerais podem ser aplicadas quando há vazamento de dados, fraude, dano ao consumidor ou impacto relevante para investidores, mas nem sempre alcançam capacidades preocupantes descobertas antes de um prejuízo concreto.

Uma análise da Reuters publicada em 16 de setembro observa que empresas podem não ter obrigação clara de divulgar comportamentos alarmantes quando não existe violação de dados, dano comprovado ou outro requisito legal específico. O dever de cuidado em negociação procuraria agir antes do dano, exigindo precauções e evidências de segurança.

O governo Trump já criou uma estrutura voluntária para avaliações de alguns modelos avançados. Uma ordem presidencial de junho de 2026 determinou medidas de cooperação com a indústria e reforço da segurança cibernética. Segundo informações divulgadas posteriormente, desenvolvedores podem submeter determinados modelos a testes federais antes da liberação.

A proposta do Senado seria diferente porque transformaria parte da supervisão em obrigação legal. Em vez de depender apenas da participação voluntária, o governo poderia solicitar documentos, realizar auditorias e buscar o bloqueio de sistemas considerados inseguros.

Resistência da Casa Branca reduz chance de aprovação

Mesmo com apoio de senadores dos dois partidos, o caminho legislativo é incerto. O calendário do Congresso oferece pouco tempo antes das eleições de 3 de novembro. Quando as negociações foram reveladas, o Senado tinha somente três semanas previstas de votações antes do pleito, enquanto a Câmara dos Representantes teria uma semana de sessões.

O texto precisaria ser concluído, apresentado, analisado e aprovado pelas duas casas. Diferenças entre a versão do Senado e uma eventual versão da Câmara ainda teriam de ser resolvidas. Depois disso, a medida precisaria da assinatura presidencial.

O presidente Donald Trump declarou que as autoridades existentes já seriam suficientes para regular empresas e punir violações. Ele também criticou pedidos de novas regras federais, o que sugere resistência à proposta. Em 16 de setembro, o assessor de tecnologia David Sacks afirmou que desenvolvedores devem responder pela segurança de seus produtos, mas defendeu que novas regulações não são necessárias, segundo a Reuters.

Essa posição cria uma divisão dentro do Partido Republicano. Enquanto Thune e Cruz negociam uma resposta legislativa limitada a riscos de maior gravidade, a Casa Branca demonstra preferência pelo uso das autoridades atuais e por uma política com menor carga regulatória.

O apoio bipartidário no Senado pode permitir avanços, mas não elimina a necessidade de acordo com a Câmara e o Executivo. Uma alternativa seria incorporar parte do texto a uma proposta maior com tramitação urgente. Até agora, porém, não existe confirmação de que essa estratégia será adotada.

Diferença entre controlar modelos e regular todas as aplicações de IA

A discussão se concentra no desenvolvimento dos sistemas mais avançados, e não em todos os usos de inteligência artificial. Isso significa que o projeto poderá tratar de como um modelo é treinado, testado e liberado, sem estabelecer regras detalhadas para cada setor que utiliza a tecnologia.

Uma empresa de saúde, um banco ou uma escola podem estar sujeitos a outras normas quando usam IA em decisões específicas. Já o regime em negociação busca avaliar riscos que estão presentes no próprio modelo e podem acompanhar sua utilização em diferentes produtos.

Essa separação ajuda a explicar a controvérsia sobre leis estaduais. Os negociadores podem preservar o poder dos Estados para regular aplicações locais, como seguros, emprego ou serviços públicos, enquanto reservam ao governo federal a supervisão dos modelos de fronteira. A fronteira entre desenvolvimento e uso, porém, nem sempre é clara. Um modelo pode ser adaptado depois do lançamento, receber novas ferramentas e adquirir funções que não estavam disponíveis na versão inicial.

O que ainda precisa ser definido pelo Senado

O conteúdo conhecido permite identificar a direção política da proposta, mas não autoriza afirmar que os Estados Unidos já criaram um veto federal sobre inteligências artificiais. Ainda faltam o texto oficial, os critérios técnicos, a definição das empresas atingidas, o procedimento de auditoria e as regras para contestação judicial.

Também será necessário decidir qual órgão terá a palavra inicial sobre a segurança de um modelo. O Departamento de Comércio possui pesquisadores e estruturas técnicas relacionadas à IA, mas uma decisão de impedir um lançamento pode envolver outras autoridades responsáveis por segurança nacional, saúde, energia e defesa.

Outro tema será o tratamento de informações confidenciais. Avaliações de modelos podem exigir acesso a detalhes técnicos, resultados de testes e vulnerabilidades que as empresas consideram segredos comerciais. O governo precisará proteger esses dados sem impedir uma fiscalização suficiente e sem esconder do público informações essenciais sobre riscos.

A proposta também deverá explicar o que acontece quando um sistema considerado inseguro é oferecido fora dos Estados Unidos ou distribuído com componentes abertos. Uma proibição doméstica pode ter alcance limitado se o mesmo modelo puder ser acessado a partir de outros países. Esse problema reforça o interesse em padrões internacionais, mas aumenta a complexidade da implementação.

Negociação marca mudança na política americana sobre IA

Mesmo sem garantia de aprovação, a discussão representa uma mudança importante. Até recentemente, grande parte da política federal americana priorizava incentivos à inovação, testes voluntários e aplicação de leis já existentes. O novo debate admite a possibilidade de uma intervenção preventiva antes que um modelo chegue ao público.

Se for aprovada com mecanismos de bloqueio, a lei colocará o governo dentro de uma decisão que hoje pertence principalmente às empresas. Desenvolvedores continuarão responsáveis por criar e testar seus sistemas, mas poderão ter de demonstrar a segurança a avaliadores externos antes de avançar.

Se a negociação fracassar, os Estados provavelmente continuarão ampliando suas próprias normas, enquanto o governo federal dependerá de instrumentos voluntários e leis gerais. Nesse cenário, empresas enfrentarão exigências diferentes conforme a região e permanecerão abertas as dúvidas sobre quem pode agir quando um modelo demonstra capacidades perigosas antes de causar um dano concreto.

Por enquanto, a formulação mais precisa é que o Senado dos Estados Unidos negocia a criação de um poder federal para barrar modelos de IA considerados inseguros. Esse poder ainda não existe nos termos discutidos, sua estrutura não foi fechada e as chances de aprovação antes das eleições são limitadas. A importância da proposta está justamente no precedente que ela poderá estabelecer: pela primeira vez, uma negociação bipartidária de alto nível considera permitir que o governo interrompa preventivamente o lançamento de uma inteligência artificial por causa de suas próprias capacidades.

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