Europol e Espanha desarticulam rede que levou mais de 2 mil migrantes pelo Mediterrâneo
Europol e Espanha desarticulam rede que levou mais de 2 mil migrantes pelo Mediterrâneo – Uma operação internacional liderada por autoridades espanholas, com apoio da Europol e de forças policiais de outros países europeus, desarticulou uma das maiores estruturas criminosas identificadas nos últimos anos no Mediterrâneo para o contrabando marítimo de migrantes. A ação terminou com 78 pessoas presas, 18 embarcações apreendidas e a identificação de uma organização que, segundo os investigadores, funcionava de maneira semelhante a uma empresa de logística voltada ao crime organizado.
Embora os resultados tenham sido anunciados apenas em 7 de agosto, a principal etapa operacional ocorreu em 16 de junho. A investigação vinha sendo conduzida desde 2023 pela Guarda Civil e pela Polícia Nacional da Espanha.
O trabalho contou ainda com a participação de autoridades da França, Portugal e Polônia e com o suporte da Europol, que reuniu parte das equipes em uma força tarefa dentro do Centro Europeu contra o Tráfico de Migrantes.
A dimensão da estrutura chamou atenção das autoridades. Ao menos 64 operações de transporte clandestino de migrantes foram relacionadas ao grupo, que teria levado mais de 2 mil pessoas da Argélia para a Espanha e movimentado mais de 24 milhões de euros, aproximadamente US$ 27 milhões, com essas atividades.
Os investigadores afirmam que os migrantes chegavam a pagar até 12 mil euros por uma única travessia.
Operação terminou com 78 prisões na Espanha e na Argélia
Das 78 pessoas presas, 77 foram detidas na Espanha e uma na Argélia. Entre os alvos estavam três indivíduos classificados pelas autoridades europeias como de alto valor para a investigação.
A maioria dos suspeitos era formada por cidadãos argelinos que, segundo as autoridades, mantinham conexões com grupos criminosos atuantes em países como França, Bélgica, Portugal, Itália e Polônia.
As forças de segurança também realizaram buscas em 17 endereços nas regiões de Alicante, Almería, Cartagena e Múrcia.
Durante as diligências, foram apreendidas 18 lanchas rápidas, drogas, aparelhos de comunicação, telefones por satélite, uma arma e mais de 25 mil euros em espécie.
Essas embarcações estavam no centro do modelo operacional investigado.
Em vez de funcionar somente como um grupo dedicado a transportar pessoas entre dois pontos, a organização teria criado uma infraestrutura capaz de atender outras redes criminosas e manter rotas marítimas regulares entre a Europa e o norte da África.
Organização funcionava como empresa de logística para o crime
Esse é um dos aspectos que mais diferenciam o caso de outras investigações sobre travessias irregulares no Mediterrâneo.
Segundo a Europol, o grupo operava como uma espécie de prestador de serviços para outras organizações criminosas.
As embarcações faziam trajetos em duas direções.
No percurso da Europa para a Argélia, seriam transportadas principalmente drogas sintéticas. No sentido contrário, as lanchas levavam migrantes para a costa sudeste da Espanha e para Ibiza.
A organização também oferecia serviços específicos a outros grupos.
Entre eles estavam armazenamento de embarcações, transporte marítimo, manutenção dos barcos, reabastecimento, transferências em alto mar e atividades de contravigilância destinadas a reduzir a possibilidade de detecção pelas autoridades.
Essa estrutura ajuda a explicar por que as forças de segurança espanholas classificaram o grupo como uma das organizações transnacionais mais complexas e ativas já identificadas nesse tipo de crime no Mediterrâneo.
O negócio não dependia apenas de preencher embarcações com passageiros.
Existia uma rede destinada a manter os barcos disponíveis, organizar rotas, movimentar recursos, fornecer combustível e oferecer capacidade de transporte para diferentes tipos de atividade criminosa.
Europol e Espanha desarticulam rede que levou mais de 2 mil migrantes pelo Mediterrâneo
A investigação conseguiu relacionar ao menos 64 operações de contrabando de migrantes à organização.
No total, mais de 2 mil pessoas teriam sido transportadas para a Espanha.
Os valores cobrados podiam chegar a 12 mil euros por passageiro, e determinadas embarcações chegavam a transportar aproximadamente 50 pessoas em uma única viagem.
A combinação entre grande quantidade de passageiros e preços elevados permitiu que a estrutura movimentasse mais de 24 milhões de euros, segundo os cálculos dos investigadores.
Parte desse dinheiro circulava por sistemas informais conhecidos como hawala.
Esse modelo de transferência é baseado em intermediários e permite movimentar valores entre diferentes países sem que cada operação passe necessariamente pelo sistema bancário convencional.
A hawala possui usos legítimos em diferentes regiões do mundo, mas também pode ser explorada por organizações criminosas porque determinadas transações deixam menos registros financeiros formais.
Para os investigadores, esse mecanismo dificultava a reconstrução do caminho percorrido pelo dinheiro arrecadado com as travessias.
Passageiros enfrentavam travessias de alto risco
O volume financeiro contrastava com as condições enfrentadas pelas pessoas transportadas.
Segundo as autoridades, as lanchas eram frequentemente utilizadas acima de condições consideradas seguras, com grande número de passageiros e deslocamentos em alta velocidade pelo Mediterrâneo.
As travessias podiam ocorrer durante a noite, em condições adversas de mar e sem equipamentos adequados de segurança.
Em determinadas situações, passageiros viajavam sem coletes salva vidas.
As autoridades afirmam ainda que algumas pessoas chegaram a ser amarradas dentro das embarcações para impedir que caíssem durante as viagens em alta velocidade.
Esse tipo de prática mostra como a relação entre os grupos criminosos e os migrantes não se limitava à prestação de um serviço clandestino de transporte.
Embora o contrabando de migrantes envolva, em princípio, o consentimento da pessoa que paga para atravessar irregularmente uma fronteira, esse consentimento não impede que durante a viagem ocorram violência, extorsão, ameaças ou outras práticas criminosas.
Os investigadores descreveram a organização como especialmente violenta.
As suspeitas não estão limitadas ao tratamento dispensado aos passageiros. O grupo também teria utilizado violência contra integrantes da própria estrutura criminosa e contra agentes públicos.
Rede também é investigada por extorsão e lavagem de dinheiro
A atuação atribuída ao grupo ultrapassa o transporte clandestino de migrantes.
A investigação encontrou possíveis conexões com roubos violentos, extorsões, cárcere privado e lavagem de dinheiro.
A estrutura também teria sido utilizada para transportar pessoas procuradas pelas autoridades.
Essa diversidade de atividades ajuda a explicar a participação de diferentes países na investigação.
Uma organização que transporta migrantes da Argélia para a Espanha, movimenta drogas em direção contrária e mantém relações com grupos estabelecidos em outros países europeus não pode ser investigada apenas dentro das fronteiras de uma única jurisdição.
A cooperação internacional tornou possível reunir informações sobre suspeitos, embarcações, movimentações financeiras e conexões mantidas em diferentes territórios.
Europol criou força tarefa para acompanhar a organização
Do lado europeu, o caso passou a ser acompanhado por uma estrutura específica vinculada ao Centro Europeu contra o Tráfico de Migrantes da Europol.
A força tarefa reuniu unidades especializadas da Polícia Nacional francesa, da Polícia Nacional espanhola e da Guarda Civil.
A Polícia Judiciária de Portugal e a Guarda de Fronteira da Polônia também deram suporte às investigações.
A participação internacional reflete o caráter transnacional da organização.
Embora o núcleo operacional estivesse fortemente ligado às rotas entre Argélia e Espanha, os investigadores encontraram conexões com redes criminosas em vários outros países.
A repressão a esse tipo de estrutura depende não apenas da prisão dos responsáveis diretos pelas travessias, mas também da identificação de financiadores, fornecedores de embarcações, intermediários financeiros e grupos que compravam os serviços oferecidos pela organização.
Contrabando de migrantes e tráfico de pessoas não são a mesma coisa
A cobertura desse tipo de operação exige uma distinção jurídica importante.
Contrabando de migrantes e tráfico de pessoas são crimes diferentes.
No contrabando de migrantes, normalmente existe um acordo entre a pessoa transportada e o responsável por facilitar a entrada irregular em outro país. O migrante paga pelo deslocamento e aceita participar da travessia.
No tráfico de pessoas, o elemento central é a exploração da vítima, que pode ocorrer por meio de violência, ameaça, fraude, coerção, abuso de vulnerabilidade ou outras formas de controle.
Os dois fenômenos podem se encontrar.
Uma pessoa pode inicialmente aceitar pagar por uma travessia irregular e posteriormente ser submetida a extorsão, violência, privação de liberdade ou exploração.
No caso investigado pelas autoridades espanholas e pela Europol, o enquadramento principal divulgado pelas instituições europeias é de contrabando de migrantes.
Por isso, apresentar automaticamente os mais de 2 mil passageiros como vítimas de tráfico humano seria impreciso.
As suspeitas de violência e outros crimes devem ser descritas separadamente a partir dos elementos reunidos na investigação.
Operação ocorreu em meio ao aumento da pressão migratória sobre a Espanha
O anúncio dos resultados ocorreu em um momento de atenção renovada sobre as rotas migratórias utilizadas para chegar ao território espanhol.
Pouco antes da divulgação da operação, uma entrada em massa de migrantes no enclave espanhol de Ceuta, localizado no norte da África, voltou a colocar a pressão migratória sobre a Espanha no centro do debate europeu.
Os episódios possuem características diferentes e não há indicação de que a organização desarticulada esteja diretamente relacionada àquele movimento específico.
Ainda assim, o contexto ajuda a explicar a atenção política e policial dedicada às redes responsáveis por organizar travessias.
A Espanha ocupa uma posição geográfica particularmente relevante por possuir fronteiras terrestres com o continente africano e uma extensa costa próxima às rotas utilizadas por migrantes provenientes do norte da África.
Grupos criminosos exploram essa localização oferecendo transporte para pessoas que tentam alcançar território europeu.
Caso mostra grau de profissionalização das redes clandestinas
O elemento mais significativo da investigação está na estrutura atribuída à organização.
A rede não funcionava apenas com pessoas que possuíam uma lancha e cobravam para atravessar passageiros.
Segundo os investigadores, havia frota, manutenção, logística, reabastecimento, pontos de armazenamento, sistemas de comunicação, movimentação financeira e serviços oferecidos para outras organizações criminosas.
Essa estrutura permitia combinar diferentes fontes de receita.
Uma mesma embarcação podia participar do transporte de migrantes e depois ser utilizada em operações relacionadas a drogas ou outros serviços.
O resultado é um modelo mais próximo de uma organização logística clandestina do que de uma simples sequência de travessias improvisadas.
Os mais de 24 milhões de euros calculados pelos investigadores demonstram a escala financeira alcançada pelo grupo.
As 18 embarcações apreendidas, os 78 presos e as conexões identificadas em vários países indicam também o tamanho da infraestrutura necessária para manter essas rotas em funcionamento.
A investigação iniciada em 2023 levou mais de dois anos até chegar à etapa operacional de junho.
Mesmo depois das prisões, o trabalho não necessariamente terminou.
Equipamentos eletrônicos, registros financeiros e informações obtidas nas buscas poderão revelar outras pessoas ligadas à estrutura e ajudar autoridades a identificar organizações que utilizavam seus serviços.
A operação mostra que parte da migração irregular pelo Mediterrâneo está relacionada a organizações que tratam o deslocamento de pessoas como uma atividade comercial estruturada, com preços definidos, capacidade logística e conexões internacionais.
É justamente essa profissionalização que torna essas redes mais difíceis de desmontar e amplia os riscos enfrentados por migrantes que recorrem a elas para tentar chegar à Europa.
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