Meta teria aprovado centenas de anúncios contendo material de abuso sexual infantil
Meta teria aprovado centenas de anúncios contendo material de abuso sexual infantil. A Investigação aponta que 332 anúncios com material de abuso sexual infantil passaram pela revisão da Meta e divulgaram aplicativos de IA.
Uma investigação do Tech Transparency Project identificou 332 anúncios pagos com material de abuso sexual infantil que teriam passado pelos sistemas de revisão da Meta. As peças foram encontradas no ecossistema publicitário da empresa, que distribui anúncios em serviços como Facebook, Instagram, Messenger e Threads, além de sites e aplicativos parceiros.
A maior parte do conteúdo promovia ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar vídeos, trocar rostos ou manipular fotografias. Em alguns casos, imagens reais de crianças disponíveis publicamente na internet teriam sido transformadas em cenas sexualizadas.
Os resultados foram publicados em 8 de setembro de 2026 e abrangem anúncios encontrados entre o final de 2025 e setembro deste ano. O levantamento foi conduzido por uma organização independente dedicada ao monitoramento de empresas de tecnologia. Não se trata de auditoria regulatória ou investigação criminal concluída.
A Meta afirma que não tolera aplicativos destinados a “despir” pessoas nem qualquer forma de exploração infantil, seja com imagens reais ou produzidas por inteligência artificial. A empresa informou ter removido os anúncios identificados e declarou que recebeu menos de US$ 5 mil pela veiculação de todo o conjunto.
Meta teria aprovado centenas de anúncios contendo material de abuso sexual infantil. Os anúncios passaram pelo sistema de revisão da Meta
O Tech Transparency Project, conhecido pela sigla TTP, localizou os anúncios na Biblioteca de Anúncios da Meta. O banco permite consultar peças publicitárias ativas e, em determinadas regiões, anúncios que já deixaram de circular.
Segundo a própria Meta, os anúncios são submetidos a uma revisão antes da veiculação. Essa análise pode considerar imagens, vídeos, textos, segmentação e páginas para as quais o usuário é direcionado. As regras da empresa proíbem expressamente conteúdo que explore sexualmente crianças ou coloque menores em risco.
A aprovação de um anúncio dentro desse sistema não significa necessariamente que um funcionário tenha examinado pessoalmente a peça. Grande parte da moderação publicitária é automatizada, embora revisores humanos possam participar de determinadas etapas ou analisar denúncias.
O fato central apontado pelo levantamento é que as 332 peças entraram no sistema, foram publicadas e permaneceram acessíveis por algum período, apesar das políticas existentes. O relatório não permite determinar, para cada anúncio, se a falha ocorreu na análise automática, em uma eventual revisão humana, na verificação do anunciante ou em uma combinação desses fatores.
Maioria promovia aplicativos de geração e manipulação de imagens
Dos 332 anúncios documentados pelo TTP, 298 encaminhavam usuários para aplicativos de geração ou manipulação de imagens e vídeos disponíveis nas lojas da Apple ou do Google. O levantamento atribuiu 253 dessas peças a aplicativos desenvolvidos por empresas ou pessoas sediadas na China.
Parte dos programas aparentava oferecer funções comuns de edição de fotografias quando apresentada às lojas de aplicativos. Depois da instalação, entretanto, algumas ferramentas disponibilizavam recursos para alterar roupas, inserir rostos em outros corpos ou produzir imagens íntimas sem consentimento.
O TTP afirmou ter testado aplicativos e encontrado funções capazes de transformar fotografias enviadas pelos usuários em imagens sexualizadas. Em 182 casos, os anúncios direcionavam para aplicativos da loja da Apple que, segundo os pesquisadores, ofereciam algum tipo de recurso de manipulação íntima.
A associação dos aplicativos com desenvolvedores chineses não significa envolvimento do governo da China nem permite responsabilizar indistintamente empresas daquele país. O dado se refere à localização informada ou apurada sobre os desenvolvedores vinculados aos aplicativos.
O relatório também identificou anúncios intermediados por três revendedores publicitários autorizados da Meta na China. Essas empresas compram e administram campanhas para anunciantes chineses interessados em alcançar públicos fora do país, onde Facebook e Instagram estão bloqueados.
A participação de intermediários autorizados amplia as perguntas sobre a verificação de anunciantes. Ainda será necessário esclarecer que controles a Meta aplicou aos responsáveis pelas campanhas, se havia tratamento diferenciado para parceiros comerciais e quem tomou as decisões relacionadas à criação e à distribuição das peças.
Fotografias reais de crianças teriam sido manipuladas
Um dos aspectos mais graves da investigação foi a identificação de fotografias de crianças reais em parte do material. O TTP e a Wired relataram ter conseguido relacionar imagens utilizadas nos anúncios a quatro menores, incluindo adolescentes com perfis públicos, uma criança fotografada para um banco de imagens e integrante de uma família real europeia.
As identidades não foram divulgadas para evitar nova exposição das vítimas. A Wired informou ter confirmado que uma das fotografias havia sido retirada do site oficial de uma família real.
O uso de inteligência artificial não reduz o dano provocado pela manipulação. Mesmo quando a cena final é sintética, o rosto ou a fotografia original pode pertencer a uma criança identificável. A circulação também pode provocar revitimização, constrangimento e perda de controle sobre a própria imagem.
O caso demonstra o risco enfrentado por famílias que publicam fotografias de menores em redes sociais, sites escolares, campanhas publicitárias ou bancos de imagens. Uma fotografia inicialmente produzida em contexto familiar, esportivo ou profissional pode ser copiada e empregada em montagens sem que a criança ou seus responsáveis recebam qualquer aviso.
Isso não transfere a responsabilidade para as vítimas ou para suas famílias. A publicação legítima de uma imagem não autoriza sua sexualização. A responsabilidade permanece com quem produz, distribui, anuncia ou facilita a circulação do material criminoso.
Número de 332 integra um conjunto ainda maior
O número de 332 corresponde ao grupo detalhado no relatório mais recente do TTP. A Wired contabilizou mais de 350 anúncios relacionados quando incorporou uma descoberta anterior de 53 peças, divulgada no início de agosto, e outras campanhas identificadas posteriormente.
A reportagem afirma que o conjunto mais amplo circulou em Facebook, Instagram, Messenger, Threads e na rede publicitária externa da Meta. Muitos anúncios repetiam formatos, textos e métodos de manipulação, o que sugere reutilização de modelos e campanhas coordenadas.
A diferença entre as duas contagens não deve ser interpretada como contradição. Os 332 anúncios correspondem ao recorte documentado pelo TTP na investigação publicada em setembro. O total superior a 350 reúne peças encontradas em momentos diferentes desde o final de 2025.
Também não é possível afirmar que esses números representem todo o conteúdo desse tipo veiculado pela Meta. A Biblioteca de Anúncios oferece níveis diferentes de transparência conforme o país. Nos Estados Unidos, anúncios comerciais comuns deixam de aparecer no banco quando encerram sua circulação, enquanto determinadas peças veiculadas na União Europeia e no Reino Unido permanecem disponíveis por mais tempo.
Por essa razão, os pesquisadores tiveram melhores condições para analisar campanhas exibidas na Europa. Outros anúncios podem ter desaparecido antes da consulta ou circulado em regiões nas quais a Meta não fornece dados detalhados.
Alcance total permanece desconhecido
A Biblioteca de Anúncios indicou que as peças analisadas alcançaram mais de 29 mil contas na União Europeia e aproximadamente 6,8 mil no Reino Unido. Esses números não representam o alcance internacional completo.
O TTP identificou 262 anúncios veiculados nos Estados Unidos, 120 na Austrália e 84 na Índia. A plataforma, entretanto, não oferece para essas regiões o mesmo detalhamento de audiência disponibilizado na Europa.
A Meta declarou que a maioria dos anúncios teve menos de 200 impressões. Impressões correspondem ao número de vezes que uma publicidade foi exibida e não necessariamente à quantidade de pessoas diferentes que visualizaram o conteúdo.
Mesmo um alcance individual reduzido não elimina a gravidade da circulação. A principal questão é como material proibido entrou repetidamente em um sistema publicitário automatizado, permaneceu disponível após denúncias e direcionou usuários para ferramentas capazes de produzir novas manipulações.
Meta removeu 149 anúncios após receber o relatório
Até 1º de setembro, 183 dos 332 anúncios já haviam sido retirados da Biblioteca de Anúncios. Os 149 restantes foram removidos horas depois de o TTP compartilhar seus resultados com a Meta, em 2 de setembro.
Os pesquisadores também relataram problemas na classificação das violações. Em 113 casos, os avisos apresentados pela Meta inicialmente mencionavam políticas sobre nudez adulta, atividade sexual ou outras infrações genéricas, sem registrar que o material envolvia crianças. As classificações foram posteriormente alteradas para indicar exploração infantil.
A identificação incorreta da natureza da violação pode afetar estatísticas internas e relatórios de transparência. Se conteúdo envolvendo menores for registrado apenas como nudez adulta, os dados divulgados pela plataforma podem não representar adequadamente o volume de material de abuso sexual infantil detectado.
O TTP informou ainda ter denunciado 129 anúncios que continuavam ativos. Em 73 casos, correspondentes a 57% das denúncias, a resposta inicial da Meta teria afirmado que a publicidade não infringia seus padrões. Em outros 56 casos, a plataforma informou que o anúncio já havia sido removido, embora seis ainda aparecessem na biblioteca.
Um dos anúncios teria alcançado inicialmente quatro contas na Europa quando foi denunciado. Antes da retirada, dias depois, a audiência registrada havia superado 330 contas. Esses episódios indicam que a demora na análise de uma denúncia pode ampliar a exposição de conteúdo ilegal.
Meta cita tentativas de evasão dos sistemas de segurança
Em resposta à Wired, a Meta declarou não tolerar aplicativos de manipulação íntima nem exploração infantil, inclusive quando o material é produzido ou alterado por inteligência artificial.
A empresa afirmou que muitos dos anúncios já haviam sido removidos antes da apresentação integral do relatório. Disse também que a maioria obteve menos de 200 impressões e que o gasto total dos anunciantes ficou abaixo de US$ 5 mil.
Segundo a Meta, alguns vídeos utilizavam cenas sintéticas com adultos e apresentavam imagens de menores por intervalos breves ou com efeitos de desfoque, o que teria dificultado a detecção automática. A companhia sustentou que anunciantes mal-intencionados modificam imagens, domínios, textos e contas para contornar os mecanismos de segurança.
A presença de técnicas de evasão ajuda a explicar parte do problema, mas não encerra a discussão. Sistemas de publicidade são controlados pela própria plataforma, que define quem pode anunciar, recebe pagamentos, seleciona públicos e distribui o material.
O valor inferior a US$ 5 mil também não permite calcular o benefício econômico completo. Ainda não se sabe quanto foi gasto em cada campanha, quanto ficou com intermediários, quantos usuários instalaram os aplicativos nem qual receita foi obtida posteriormente pelos desenvolvedores.
Apple e Google retiraram aplicativos citados
Os anúncios encaminhavam usuários para quase 50 aplicativos disponíveis nas lojas da Apple e do Google. As duas empresas afirmaram ter adotado medidas depois de receber informações sobre os programas.
A Apple declarou que não tolera desenvolvedores que tentam contornar sua revisão. Segundo a empresa, alguns aplicativos foram apresentados inicialmente com funções compatíveis com as regras e ativaram posteriormente recursos proibidos. Dos 20 aplicativos incluídos na apuração recebida pela companhia, 17 já haviam sido removidos, e os três restantes foram retirados após a comunicação. Outros sete aplicativos localizados pela Wired também foram excluídos.
O Google informou ter suspendido todos os aplicativos citados pelo TTP, incluindo ferramentas de inteligência artificial e serviços de rede privada virtual. A empresa também declarou que vem restringindo termos de busca relacionados a programas destinados a remover digitalmente roupas de fotografias.
As remoções demonstram que o problema não termina na plataforma que distribui a publicidade. O percurso envolve anunciantes, intermediários, redes sociais, lojas de aplicativos, serviços de pagamento e empresas responsáveis pela infraestrutura digital.
Material foi comunicado ao NCMEC
O Tech Transparency Project informou ter encaminhado todos os anúncios encontrados ao CyberTipline, canal do National Center for Missing and Exploited Children, o NCMEC. A Meta também declarou que comunicaria o material à organização.
O NCMEC recebe denúncias de suspeitas de exploração sexual infantil, acrescenta informações quando possível e disponibiliza os registros às autoridades responsáveis. A comunicação ao CyberTipline não representa confirmação judicial do crime, identificação automática dos autores ou abertura garantida de uma ação penal. Cada registro ainda precisa ser analisado e, quando houver elementos suficientes, encaminhado para investigação pelas autoridades competentes.
Como as campanhas circularam em diversos países, uma eventual responsabilização pode envolver diferentes legislações, autoridades policiais e órgãos reguladores. Também será necessário determinar onde estavam os anunciantes, desenvolvedores, servidores, vítimas e usuários alcançados.
Investigação aponta falhas, mas não substitui auditoria oficial
Os resultados oferecem evidências relevantes de que conteúdo proibido atravessou repetidamente os controles publicitários da Meta. A repetição de formatos, a existência de anúncios aparentemente idênticos e as respostas negativas a parte das denúncias reforçam a necessidade de examinar a eficácia da moderação.
Ainda assim, o relatório tem limites. O levantamento foi realizado por uma organização independente e dependeu do conteúdo acessível na Biblioteca de Anúncios. Os pesquisadores não tiveram acesso aos sistemas internos da Meta, às decisões completas de moderação, aos modelos automatizados empregados ou aos registros integrais de audiência e faturamento.
Por isso, não é possível concluir apenas com os dados públicos quantas pessoas participaram da criação das campanhas, se todos os anunciantes estavam ligados entre si ou qual foi a dimensão total da circulação.
Também não há, até o momento, auditoria regulatória concluída que estabeleça a responsabilidade jurídica da Meta, da Apple, do Google ou dos desenvolvedores. Autoridades e parlamentares nos Estados Unidos e na Austrália informaram que analisam o caso, mas essas iniciativas ainda não produziram decisões definitivas.
Caso amplia pressão sobre a publicidade a publicidade automatizada
A investigação desloca parte do debate sobre segurança digital. O problema não se limita a publicações espontâneas feitas por usuários. As peças identificadas eram anúncios pagos inseridos em uma infraestrutura comercial que recebe dinheiro, avalia campanhas, define distribuição e entrega conteúdo a públicos selecionados.
A questão central passa a ser se os mecanismos utilizados para impedir exploração infantil conseguem acompanhar anunciantes que recorrem a inteligência artificial, desfoque, substituição de domínios e contas falsas para escapar da detecção.
A retirada dos 332 anúncios encerrou a circulação das peças documentadas, mas não demonstra que outras campanhas semelhantes tenham sido eliminadas. Também não responde por que dezenas de denúncias foram inicialmente rejeitadas nem por que anúncios equivalentes receberam decisões diferentes.
Uma avaliação completa dependerá de dados que apenas as empresas possuem, como registros de revisão, identidade dos pagadores, métodos de segmentação, histórico das contas, instalações geradas e receita correspondente.
Até que essas informações sejam examinadas por autoridades ou auditores independentes, a formulação mais precisa é que o TTP encontrou 332 anúncios que aparentavam conter material de abuso sexual infantil e que foram veiculados depois de atravessar o sistema de revisão publicitária da Meta. A empresa removeu o conteúdo e contesta qualquer tolerância a esse tipo de material, mas ainda precisa explicar como as campanhas foram aprovadas e por que parte delas permaneceu acessível após ser denunciada.
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